sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Ariadne em Náxos (de Alma Welt)


Estatueta de faiança colorida, de 1.600 A.C., no apogeu da cultura miceno-cretence, descoberta pelo arqueólogo inglês Arthur Evans nas escavações por ele realizadas no palácio de Mino em Cnossos, Creta. Ele a denominou "a sacerdotisa das serpentes", porque assim a supôs. De qualquer forma, essa graciosa estatueta que tem a figura de um gato sobre a cabeça, revela a curiosa moda das mulheres cretenses naquele período, com vestidos longos de babados e os seios à mostra sobre um apertado corpete.

______________________________________________

ARIADNE EM NÁXOS

( 1° capítulo da novela ARIADNE em três capítulos, pertencente à Trilogia Mítica de Alma Welt)



"Eu andava ali, nas sendas do obscuro reino, cujo rei nunca foi visto, e do qual, seus súditos, que eu não via, nunca tiveram notícias, imersos que estavam em trevas muito antigas.”



Um dia, subitamente, desapareci. Não pude encontrar-me em parte alguma. Andava pelo meu estúdio, agoniada, tentando dar-me conta do meu paradeiro. É verdade que os primeiros sinais do meu desaparecimento já se tinham iniciado há alguns dias, mas eu não quisera deter-me a pensar naqueles sintomas. Uma vaga nostalgia, alternada a uma ansiedade súbita: um não sentir-me bem dentro da minha pele; uma vontade de retornar não sei para onde, reprimida como indesejável. Voltar ao sul? Não, não se tratava disso. Se fosse assim, teria sido fácil lidar com isso.
Eu estava ali, perdida de mim, em meu próprio apartamento. Se eu ainda estivesse no labirinto, saberia o que fazer: tenho dentro de mim um comprido fio que eu percorreria enrolando-o novamente. Mas não, eu não estava em parte alguma. Tinha mesmo desaparecido.
Após três dias, ouvi vozes no corredor e em frente à porta. Mexiam na fechadura e logo a abriram. Vi entrarem o zelador, seu Ermírio, a síndica, dona Aurélia e sua filha Regina. Seu Ermírio dizia:
–Ela não está, dona Aurélia, estou lhe dizendo. Tenho observado o apartamento, quando venho fechar as janelas dos corredores de serviço, por causa das chuvas. Nenhum movimento e nenhuma luz acesa, de noite. Nada de som de televisão ou rádio, ou qualquer outro.
–Mas, Ermírio–disse dona Aurélia–Você não a viu sair de malas? Estamos no fim do ano, algumas pessoas já pararam de trabalhar e começam a sair de férias... Você tem certeza que ela não passou pela portaria? E os outros funcionários? Ela poderia ter saído num momento de troca de porteiro. Não houve um momento sem ninguém na portaria? Alguns minutos que fossem?
–Não, dona Aurélia. E sua filha também não viu ela, não é mesmo, Regina?
–É, mamãe. Eu acho muito estranho. Olhe a cama dela, está desfeita. Ela não parece pessoa que iria viajar deixando a cama assim. Tudo o mais é tão ordeiro por aqui, apesar de ser um estúdio. Somente as telas, no chão, o que me parece normal. Olhe, mamãe, como é belo aqui. E que quadros! Como ela pinta! É lindo demais. E quantos livros!
– Mas Regina, não é hora de reparar nisso. Há algum mistério aqui.
Estou cada vez mais preocupada. Essa moça é muito independente. Ah! se fosse minha filha... Eu a traria, aqui, rente, no cabresto.
– Como você faz comigo, não é? Estou farta, fique a senhora sabendo. Já não sou criança. Tenho 38 anos e a senhora não larga do meu pé.
Ah! Como eu queria ser como a Alma! Ela é tão linda! É verdade que ela me abala um pouco com aquela beleza toda e aquele olhar tão misterioso e meigo. Quando acontece de a gente se encontrar no elevador, subindo ou descendo, meus cachorrinhos ficam mais silenciosos, quietos. Não latem e não parecem amedrontados. Como eu, eles não desgrudam o olhar dos olhos dela. Eu fico também paralisada, inibida, não sei o que falar. Mas não é medo, é uma fascinação. Aquele olhar tão profundo, e tão doce... Tenho vontade de chorar, quando me vejo assim diante dela, a sós, no elevador.
Eu ouvia aquilo, comovida. Eu, na verdade, nunca dera muita atenção à Regina, e apenas a olhava nos olhos, no elevador, tanto quanto aos seus lulus brancos, sempre tão limpinhos, como flocos de algodão, que, muito agitados, paravam mesmo, quando me viam.
–Regina, eu sei o que você quer dizer. Eu vejo pouco essa moça. Ela nunca vai à reunião de condomínio, mas eu adquiri suas gravuras para o prédio, assim que as vi. Ela deixou de pagar o condomínio por um ano, em troca delas. Aquelas doze gravuras lindas foram descontadas uma por mês. Penduramos elas imediatamente, e durante a reunião os outros condôminos nem hesitaram em aprovar unanimemente. Elas valorizaram o aspecto das nossas portarias, nos dois blocos. Gosto muito dela também. Sempre apoia de antemão minhas iniciativas, embora não compareça às reuniões. Por isso, e por tudo, me preocupo com ela. Ela não parece ter pai, nem mãe, nem é visitada por familiares. Percebe-se que, de tempos em tempos, ela vive um temporada com alguém. Uma amiga ou outra, sempre muito belas, também. Houve um namorado, há alguns anos, com quem ela saia de mãos dadas, muito alegre. Ela parecia muito feliz, naquele tempo.
–Mas, mamãe, ela parece sempre feliz. É isso que me intriga. Sempre sorri para a gente, embora não fale, quase. Ela é reservada, de um jeito diferente, porque o seu sorriso é muito belo e faz bem à gente, como se ela estivesse se dando, sei lá...
–Pois é, Regina, por isso estou mais preocupada ainda. Talvez devamos chamar a polícia. Eles poderiam fazer uma investigação, achar uma pista, que sei eu?... Essa moça pode estar em apuros. Vamos, Regina, procure um bilhete, uma carta, uma mensagem qualquer por aí. Olhe debaixo da cama, também...
Eu me sentia curiosa e fiquei observando o movimento dos três. Seu Ermírio não ousava tocar em nada, mas olhava perplexo para todos os lados, parecendo nunca ter visto nada como aquilo tudo. Quero dizer, o aspecto do meu estúdio, que certamente não pareceria uma casa, um lar, aos seus olhos. E a minha cozinha, então, que não era separada do salão e nem tinha um pingüim em cima da geladeira! Sorri com esse pensamento, mas logo pus-me aflita e aproveitei para sair com eles quando resolveram ir embora para tomar alguma providência. Fecharam a porta por fora com a chave mestra com a qual a tinham aberto e eu dei-me conta de que eu não pegara as minhas chaves. Resolvi ir procurar Aline. Afinal, eu tinha um bom pretexto: ela ainda tinha as minhas chaves. Há meses eu não a via, por orgulho, desde que ela me deixara. Mas agora eu podia procurá-la, pois afinal, eu estava desaparecida, e precisava das minhas chaves. Ela me receberia de braços abertos, eu imaginava. Nunca rompemos formalmente. Ela me abandonou com um grande beijo e um sorriso, se bem me lembro. Nunca imaginei que ela iria mesmo me deixar, embora ela viesse falando nisso, como hipótese. Mas, não quero lembrar dos momentos tão dolorosos que se seguiram. Agora é o momento de procurá-la, eu sei.
Cheguei ao prédio da Aline, passei pela portaria e não me perguntaram nada. Tomei o elevador e subindo até o seu andar, toquei-lhe a campainha e ela me abriu a porta com um ar perplexo, os olhos muito abertos.
– Alma, você por aqui? Você está desaparecida, onde você está? Ah! minha querida, dê-me um abraço, assim, forte, e um beijo. Entre, entre, não repare a bagunça. O Pedro é muito bagunceiro e eu, você sabe, não menos, não é? Não sei como você me agüentava. Mas sente-se aí no chão, Alma, nessas almofadas, vou pegar um vinho para nós. Precisamos brindar a esse nosso reencontro.
Aline me conhecia, sabia quando eu desaparecia, e não se importava demais com isso, aparentemente. Ela estava ali, diante de mim, e meus olhos se enchiam, de lágrimas. Eu ainda a amava... e não mais sabia o que fazer com esse fato. Abraçá-la? Beijá-la? Não, não se tratava mais disso. Talvez eu quisesse compartilhar com ela o meu desaparecimento, por narcisismo. Eu que fui por tanto tempo o seu espelho, agora parecia um espelho vazio, ela não me veria sequer como um reflexo. Uma dor súbita apertou-me o peito. Tomei o vinho com ela, como duas boas amigas, mas ela estava levemente constrangida. Percebi que o meu desaparecimento já não lhe dizia respeito. Eu desaparecera tarde demais.
Saí dali, entristecida, sem despedir-me e sem ser percebida. Resolvi procurar Vânia. Ela saberia, talvez, o que fazer com o meu desaparecimento. Talvez trazer-me de volta, sei lá.
Cheguei cansada de tanto andar. Subi os inúmeros degraus até a porta de sua casa. Toquei a campainha e a sua empregada abriu-me o portão. Ela me esperava na porta e abraçou-me, comovida. Choramos muito, abraçadas, e ela dizia:
– Alma, Alma, como você pôde desaparecer assim? Que lhe fizemos, Alma? Você não nos avisou nada. A nenhum dos seus amigos. Estamos sentindo a sua falta, sua ingrata! Quando você vai reaparecer?
Abracei-a e beijei-a. Quis levá-la até o seu quarto, mas ela, pela primeira vez, hesitou. Disse:
–Alma, nada podemos fazer, enquanto você estiver assim...sumida .Eu não me sentiria bem, nem você, acredito. Tenho medo de você evaporar-se diante dos meus olhos, Eu não agüentaria. Já sofri demais por você, também, Alma, você sabe.
Depois de ouvir isso, eu quis sair logo dali. Comecei a chorar, lembrando do nosso amor, e das nossas ardentes noites de paixão, quando parecíamos entrar, literalmente uma dentro da outra, embora só pudéssemos introduzir uns dedinhos, essa é que é a verdade.
Ai, quanta dor, quanta nostalgia do amor que ainda carregávamos dentro de nós, dos nossos seios, vaginas e úteros. Dos nossos lábios que viviam grudados, outrora, a não muito tempo atrás.
Deixei-a também, e de cabeça baixa, desci aqueles degraus, como um espectro de mim mesma. Eu já não me sentia ali, já não me sentia em parte alguma. Era melhor procurar o meu analista. O dr. Platus saberá, talvez, lidar com isso. Talvez possa me aconselhar... e fazer-me reaparecer. Afinal, é para isso que ele é pago, não é mesmo? Afinal, um psicólogo é um investigador, um detetive da alma, terá que dar-me notícia do meu paradeiro.
Atravesso o meu bairro todo, então canso e tomo um táxi, desço em frente ao consultório do dr. Platus. Não marquei hora com ele. Nem sequer telefonei. Mas algo me diz que ele me receberá, achará um horário para mim, ou uns minutos entre consultas. Afinal, trata-se de uma emergência...
Sua secretária, surpresa, pergunta-me se eu falei diretamente com o doutor, pois não lhe consta que eu tenha horário hoje. Consulta sua agenda, e reitera:
–Alma, não é seu dia hoje. Você tem hora amanhã, e mais cedo, você sabe. Você tem algum problema, querida? Você está meio desaparecida, agora vem assim, fora do seu dia e horário. Mas espere, o doutor já está terminando uma consulta. Quem sabe...
O doutor Platus abriu a porta, despedindo-se de uma moça. Olhou-me com surpresa, e à dona Aglaia. A secretária quis justificar-se, mas ele fez um sinal, e com um sorriso receptivo, pegou-me pela mão e introduziu-me na sua sala.
Sentou-se na sua poltrona com um gesto para que eu me sentasse e disse:
–Alma, Alma. Algo me dizia que você desaparecera. Percebi os primeiros sinais, na nossa última sessão. Tentei preveni-la, lembra-se?. Mas você não levou em consideração, e não havia nada que eu pudesse fazer para deter o processo. Você sabe... há um certo determinismo quanto a isso. Sei detectar os primeiros sintomas. Aquele seu ar vago, aqueles suspiros, o olhar distante e distraído. Mas, não somente isso, é claro, isso acontece freqüentemente com algumas pessoas sonhadoras. Mas, o conteúdo de suas palavras, Alma, é que me alertou, na nossa última sessão. Você insistia que o seu lugar não era aqui, e que a sua alma estava deslocada. Que ansiava recolher-se a uma profundidade que você não definia bem. Você me preocupou, Alma. Diga-me agora o que você está sentindo. Preciso entender para poder ajudá-la. Conte-me tudo. Onde você está?
Dei um soluço e explodi em lágrimas. Eu não sabia exatamente porquê. Não chorava por mim. Eu estava ausente. Chorava pelo amor das pessoas. Pelo amor que eu percebia neste médico, neste analista, neste homem bom, que nitidamente me amava, sem poder jamais declarar-se. Resolvi, naquele momento, voltar à noite ao seu consultório, escondida, para ler a minha ficha, isto é, as suas anotações ao meu respeito. Sei que isso é muito irregular, nada ético, mas não me importo: é o único meio de saber o que se passa comigo, pois suspeito que o doutor Platus sabe muito mais do que quer me dizer. Além disso ele parece um pouco inibido de abrir-se comigo, temendo uma inversão de papéis, talvez.
Despedi-me do meu analista, que se desculpava por não ter uma hora inteira para mim (50 minutos), afinal não era mesmo o meu horário e dia, mas que desejava que eu suportasse tudo com coragem, e não fizesse nenhuma besteira durante a minha ausência. Amanhã nos veríamos.
Voltei para casa, passei pela portaria sem ser notada, e diante da minha porta lembrei-me de que eu não tinha a chave, que ficara dentro, a porta trancada pela dona Aurélia, por fora. Mas resolvi entrar assim mesmo, instintivamente confiante na sutileza da minha matéria, naquele estado de ausência em que me encontrava. Me vi imediatamente do lado de dentro, o que aumentou a minha confiança na empreitada noturna a que me dispusera, penetrando no consultório do doutor Platus para fuçar o seu arquivo.
Esperei a noite chegar, com aquela paciência dos ausentes, que parecem não ter pressa para nada, muito menos para retornar. Desconfio que havia uma mudança do sentido do tempo. Eu poderia facilmente projetar-me no amanhã, que seria a mesma coisa, pois, desaparecida, eu não poderia realmente agir sobre o mundo, afirmar minha presença.
Lá pelo que seriam 10 horas da noite, encaminhei-me para o consultório do dr Platus. Logo vi-me na sua sala de consultas, às escuras. Acendi a luz, sem receio, já que não poderia ser flagrada por nenhum eventual vigia noturno, que no máximo encontraria a luz acesa, as pastas remexidas, e atribuiria a um misterioso ladrão.
Encontrei logo a minha pasta e sofregamente comecei a ler:
“ Alma Welt
Minha paciente desde ....de Setembro de 19... Gaúcha de..... ,filha de pai médico e fazendeiro, órfã de mãe desde a sua idade de 13 anos, e de pai há quatro anos.
“ A paciente adentrou o meu consultório, em estado de melancolia, como ela mesma definiu. Preferi não precipitar-me num diagnóstico de depressão, ou de PMD, já que seus sintomas secundários são atípicos. A moça sorri, embora tristemente, e sua beleza e doçura impressionaram-me. Trata-se de uma artista: poeta e pintora. Creio que vai ser muito interessante.”
Havia inúmeras outras anotações, até chegar a uma data recente, que era o que me interessava. Encontrei isso:
“ Alma prepara-se para desaparecer. Ela ainda não sabe disso. Sua alma tende a refluir para o seu interior mais profundo. Essa caminhada já começou e tenho dificuldade de acompanhá-la. Estamos às portas do labirinto. Ela é a senhora desse labirinto, mas também não sabe disso. É, não somente regida por Ariadne nessa atual fase de sua vida: ela é Ariadne, na verdade. Ela não sabe que já me permitiu entrar nesse labirinto, soltando-me seu próprio fio. Tive medo, apesar disso, e parei perto do centro, do fundo. Não cheguei a penetrar na câmara do Minotauro. Ela puxou, sintomaticamente, o fio. Creio que ela quer fazer isso pessoalmente, receio que sem a minha presença. Estou envolvido demais com a paciente, para minha vergonha profissional. Mas não quero pensar nesse aspecto. Eu amo Alma, como nunca amei ninguém, nem a minha mulher. Não sei aonde isso vai dar, pois por si só, isto é também o Labirinto.”
Mais adiante encontrei isto:
“ Meu amor e meu desejo por Alma estão me atormentando, mas estamos perto de chegar ao centro. Ela não somente solta o fio, mas acompanha-me pelos corredores sem fim. Ela não percebe, como eu, essa espécie de companheirismo: agora sou dependente dela para retornar. Matarei o Minotauro, junto com ela, ou ela mesma o fará. Depois ela me guiará de volta se não me abandonar ali, meu único temor. Estarei enlouquecendo?”
Mais adiante ainda, isto:
“ Alma destruiu o Minotauro, com a minha ajuda. Foi algo de uma violência indescritível. Uma carnificina, para dizer o mínimo. Tive que reunir toda a minha coragem para manter-me firme e incentivá-la na sua luta heróica. Quando terminou abracei-a fortemente, longamente, e ela chorava muito. As deusas choram, estou vendo. E eu chorava com ela, o que é muito irregular, eu sei. Também beijei as suas pálpebras, seu rosto, e afinal seus lábios. Ela retribuiu, abandonou os seus. Mas não posso aproveitar-me disso, não posso. Retiramo-nos daquele labirinto, saindo pela única saída: a porta de entrada. Ela o conhecia como a palma de sua mão, essa é que é a verdade. Ela é a senhora do labirinto. O resto da sessão fizemos uma viagem de retorno. Buscávamos, por assim dizer, as Ilhas Bem Aventuradas. Nós bem que as merecíamos, depois de tudo, de tanto sofrimento. Mas temo que encontramos uma espécie de Náxos, no caminho. Ela imobilizou-se, e eu retornei sozinho. Estou triste e preocupado. Ela agora está ausente, numa espécie de limbo, ou de ilha neutra, e não sei como retirá-la de lá. Tenho um estranho remorso, como se fosse culpado de deixá-la ali. O que fazer? Ela agora está desaparecida e sei que espera o meu retorno, mas não sei como voltar. Meu pai morreu nesse ínterim, e eu já estava de luto mesmo antes disso acontecer.”
Fiquei pensativa. Eu não imaginava que as coisas tinham chegado a esse ponto. O doutor Platus me amava! Bem que eu já suspeitava. E ele tentara me ajudar, ou eu a ele? Não sei mais. O fato é que ele me abandonara no meio do caminho, em minha Náxos, e eu agora não sabia sair daqui e não poderia contar com ele. Talvez, se eu invocasse a minha alegria... Sim, o meu Dioniso interno, esse deus hermafrodita que sempre regeu as minhas relações. Ele me ajudaria a sair desta espécie de limbo, e chegar às Ilhas Bem Aventuradas, ou pelo menos retornar à minha amada Creta.
Volto a consultar o Diário do doutor Platus:
“ Alma esteve aqui hoje. Ela está desaparecida. Por isso não cabe aqui um diagnóstico de “inflação”. Ao contrário, ela está esvaziada, por assim dizer. Eu poderia aproveitar-me disso, e projetar-me nela. Digo, projetar a minha Anima. Ela ficaria mais dócil nas minhas mãos? Não sei, tenho medo. Esse processo é ilícito para mim, como seu psiquiatra, e poderia revelar-se um tiro pela culatra. Eu ficaria talvez tão tomado pela paixão, que cometeria uma loucura. Quantas vezes o meu desejo encontrou a minha sombra, delineando a forma do estupro. Tenho medo. Sei que a qualquer momento posso ser tomado por esse demônio. Alma corre perigo em minhas mãos. Não, doutor Platus, não exagere. Você, sim, parece inflacionado.”
Dei um gemido. Surpresa? Não, eu não estava surpresa. O doutor Platus não me enganava. Eu já sentira a sua paixão, e o brilho (ou a sombra) do estupro nos seus olhos. Mas eu não me preocupara. Jamais me preocupo. Vou sempre ao limite de tudo. Será que eu o provocava? Disso não tenho plena consciência. Minha natureza parece fazer isso desde criança. Não é a toa que fui estuprada ainda menina, naquela fazenda em Minas Gerais, por aquela “serpente” de olhos verdes. Um jovem adulto, enorme, que quase me matou de dor...e de prazer. Essa é que é a verdade. Sempre esperei ser violentada pelos meus eleitos. Não temo a dor. Tenho o abismo e a volúpia da entrega dolorosa. Serei eu, afinal, uma doente? O doutor Platus detectou isso em mim.
Bem... eu contei tudo a ele, e isso costuma despertar a imaginação dos homens. E o doutor Platus é simplesmente um homem! Porquê estaria imune ao desejo que desperto neles? Por outro lado, serei eu uma espécie de hetaera, para não dizer pior? A verdade é que seu desejo desperta o meu, grande narcisista que sempre fui. Mas...e agora, como sair daqui? Digo, dessa Náxos em que me sinto abandonada?
Volto a ler o final da sua anotação de hoje:
“ Alma virá amanhã. Espero ansiosamente. Sinto que devo possuí-la. Meu instinto diz que só assim a trarei à sua superfície, à plenitude do seu corpo exuberante. Sua matéria sutil precisa ancorar-se. Não, isso não é uma justificativa. Se eu possuí-la, salvaremos a nós dois. Estarei livre deste meu sentimento de culpa, e ela do de seu abandono. Digo mais: devo engravidá-la. Assim a salvarei como mulher. E ela será minha para sempre!”
Botei as fichas no lugar, apaguei a luz, e voltei ao me apartamento com o coração em tumulto.

____________________________

Capítulo segundo

Teseu

Passo uma noite extremamente povoada, para uma ausente. Tenho visões em semi-sono, e voltam–me os momentos do combate com o monstro, no centro do labirinto. No fundo, todo o meu ser espera por Teseu, digo, pelo doutor Platus.
Ao amanhecer, dedico-me a uma cuidadosa toilette. Um demorado banho, com ervas. Enxáguo os cabelos com xampu especial. Todos os cuidados com a pele, as unhas, e tudo mais. Penteio-me longamente, depois de secar os cabelos. Agora um leve baton. Visto-me de branco. Um vestido vaporoso, e sandálias prateadas. Sinto-me bela, afinal, e encaminho-me para o consultório do doutor Platus.
Dona Aglaia olha-me com curiosidade, talvez pelo meu aspecto. Pergunta-me como estou, coisa que não costuma fazer. Afinal, ela tem de ser discreta e anódina, por profissão. Como uma escrava, suponho.
Chegando o meu horário, que me pega imóvel, sem estar lendo nenhuma revista, sou chamada e entro na sua sala. Noto que não há mais ninguém esperando depois de mim. E vejo dona Aglaia, estranhamente, vestindo seu casaco e pegando sua bolsa para sair.
O doutor Platus pega-me pela mão, olha dona Aglaia e faz-lhe um sinal disfarçado, como se estivesse apressando-a para que fosse embora. Essas manobras não me passaram despercebidas. Vou sentar-me na poltrona, mas o doutor Platus faz-me um gesto detendo-me e apontando-me o divã, que normalmente seus pacientes não usam, mas que está sempre ali, a postos. Meu coração bate acelerado.
Alma–ele diz–confesso que a esperei com impaciência. Seu caso tem uma certa urgência, não é possível você permanecer assim, desaparecida. Onde você está ? Como passou a noite?
–Doutor Platus, estou estranha. Nunca me senti assim antes. Sinto-me lúcida, mas ao mesmo tempo, ausente. Vejo-me um pouco de fora, por assim dizer, ou talvez demasiado de dentro, não sei ao certo. Dá para entender?
–Sim, Alma, sim, eu acho que compreendo. Deite-se e relaxe. Feche os olhos. Vamos fazer um pouco de retrospecção induzida, como uma hipnose consciente. Há tempos não fazemos isso, mas creio que agora será produtivo. Deixe seu pensamento fluir... para trás. Para aquela sua temporada de férias, naquela fazenda que não era a sua, mas da sua tia em Minas, daqueles primos. Assim...você está passeando no terreiro, agora se encaminha para o paiol. Entra. Sente o cheiro da palha de milho, abundante ali. Tem vontade de deitar-se nela. Agora diga o que vê.
–Vejo as frestas luminosas, entre as tábuas, com os raios de luz fazendo a poeira dançar. Fico vendo os filamentos que aparecem e desaparecem no ar, infinitamente.
–E no que você pensa, Alma?
–Penso justamente na alma, que aquilo parece a minha alma...não sei bem porquê.
–E depois, Alma, o que você vê?
–Uma sombra, doutor. Vejo uma sombra que corta os raios de luz, lá fora. A porta geme, se abrindo. Um vulto... Não enxergo bem, uma silhueta alta. Meu Deus! Ele tranca a porta com a tramela, atrás de si!
–E então, Alma, o que aconteceu?
–Ele fala. A voz é muito grossa. Ele fala!
–O que ele fala, Alma?
–Tenho vergonha, tenho vergonha! Não posso dizer o que ele fala!
–Conte, Alma, conte tudo. Nada tema. O que dizia ele?
–Ele diz: “Priminha, tô de olho em ocê, sei que ocê ainda tá seladinha, depois daquele casamentinho de mentira... Por isso vou entrá no seu buraquinho de trás, que é procê saber o que é um home, mesmo, e depois ainda podê casar de verdade.”
–Alma! O que aconteceu então?
– Ai, doutor Platus! Ai! Dói demais. Estou sendo aberta, como um fruto! Estou sendo rasgada ao meio. Socorro! Doutor Platus, ajude-me! Ele está dentro de mim, inteiro, ai! Agora se movimenta, rápido. Quer virar-me do avesso. Ai, já não sinto mais dor. Agora sinto prazer. Entrego-me inteira. Ele ofega e sussurra em minha orelha. Diz que vai explodir dentro de mim, Ai doutor, quero morrer de... prazer!
–Sim, Alma. É assim, veja, é assim – disse o doutor Platus, tirando a minha calcinha. Assim... Alma, não dói.. Você não quer na frente? Na frente não dói...Não? Está bem, atrás... como ele fez, não é ? Veja, é preciso estar lubrificado. Veja como eu entro em você... Estamos juntos. Nada tema.
Sim, doutor Platus, sim, o senhor pode fazer. Já não dói mais. Pode fazer, doutor Platus, pode fazer...
Ele ficou longamente entrando e saindo de dentro de mim. Retirava a sua lança, e levantando-me as pernas sobre os seus ombros, olhava-me toda aberta e introduzia de novo. Afinal explodiu seu sêmen dentro de mim, que escorreu numa golfada sobre aquele divã. Ele permaneceu um longo momento olhando-me assim aberta , com as palmas de suas mãos nas minhas nádegas, abrindo-as, expondo-me, devassada, avaliando a sua obra. Sob esse olhar, igualmente invasor, percebi, de relance, um longo fio de prata, que saindo da ponta do seu enorme membro congestionado e rubro, ainda me unia a ele, como um insólito cordão umbilical. Então, tive um violento orgasmo. Orgasmos múltiplos, como um labirinto, sacudiram-me entre suas mãos, que me mantinham assim para observar minhas contrações estertóricas. Então, um súbito relaxamento, quase como um desmaio, ou uma doce fração da morte, me tomou. Permaneci vagando, fora do tempo, nas Ilhas Bem Aventuradas ou nos Elíseos, que sei eu?...
Depois de um longo momento de lassidão, de ambos, o doutor Platus começou a querer balbuciar desculpas, mas isso não me interessava. Queria mesmo é que ele fizesse aquilo novamente. Suas desculpas me decepcionavam.
Saí do seu consultório andando com dificuldade. Aquilo já me acontecera outras vezes na vida. Essa é que é a verdade. Mas, no corredor, amparada ainda pela mão do doutor Platus, dei-me conta de que fora novamente estuprada. Mas, ao mesmo tempo, sentia-me feliz. Percebi que me materializara, por assim dizer.
O doutor Platus demorou a soltar-me a mão e só o fez quando a porta do elevador já se fechava.
Cheguei ao meu estúdio e joguei-me na cama. Mas eu percebera ao entrar, que o seu Ermírio me saudara com alegria e surpresa. Perguntou-me se eu estivera viajando e onde estava a minha mala.
Respondi-lhe que eu viajara sem bagagem, o que o deixou muito espantado. Mas eu não expliquei nada. Só queria disfarçar o meu andar penoso, e chegar logo na minha cama.
Passei uma tarde e uma noite quase normais, apesar da dor. Não foi possível pintar, já que o faço de pé durante muitas horas. Mas escrevi alguma poesia. Eu me sentia centrando-me e corporificando-me cada vez mais. Eu reentrava em meu eixo. Eu necessito do amor corporal. Necessito ser tocada e atingida para poder produzir arte: Pintura, contos e poesia. Uma coisa depende da outra, se alimentam mutuamente. Preciso amar e ser amada. Mas preciso possuir e ser possuída fisicamente, mesmo que seja com violência, ou nada poderei criar nesta vida.
Amar, criar, gozar plenamente, esse é o sentido da vida para mim. Tudo o mais é balela. Tudo o mais é... fútil. Ser penetrada é...essencial, e toca-me o manancial da arte, em mim.
.....................................................................................

No dia seguinte recebi um telefonema do doutor Platus. Ele falava agora pessoalmente, não mandava a dona Aglaia passar recado. Queria ver-me, estava levemente ofegante. Pensei: “o doutor agora considera-me sua, e vai declarar-se logo”. Dito e feito. Ainda pelo telefone, ele disse:
–Alma, preciso vê-la imediatamente. Venha aqui, ou deixe-me ir aí. Alma, eu a amo. Quero explicar-me com você. Quero dizer-lhe porque fiz aquilo. Você está bem? Não está magoada? Você entendeu, Alma? Não quero perdê-la. Posso vê-la, Alma, logo?
—Sim, Doutor Platus—eu respondi.–Está tudo bem, eu compreendi. O senhor não me magoou. O quê? Não quer que eu o chame mais doutor... Porquê? Bem, está bem... Platus. É esquisito chamá-lo assim. Não sinto essa intimidade, por incrível que pareça, me desculpe. O que ocorreu... Bem doutor, o senhor se aproveitou oportunamente de mim, e me salvou. Sou-lhe grata. Não, não estou machucada, nem ofendida. Muito menos humilhada. Eu sabia, doutor Platus, que isso aconteceria, só não sabia que seria assim... por trás. Está envergonhado? Eu não. O senhor quer vir aqui? Sim... pode vir, mas não hoje...daqui a dois dias. Preciso me recuperar, fisicamente. Não, não... estou apenas dolorida. Meu corpo todo dói. Desaparecer causa muita tensão muscular, e ser estuprada, mais ainda. Não, não estou sendo irônica. O senhor já me conhece, sou sincera e objetiva, acho. Está bem. Sim, outro. Até lá.
No dia seguinte pintei um pouco. Comecei um quadro, mas o esforço de encher uma tela é maior no início. Exige muita tinta e esfregaço de pincel para impregnar a tela. Meu corpo ainda se ressentia. Mas, pelo menos eu me sentia presente e a minha própria matéria se adensava, como as camadas que eu aplicava sobre a tela. Como a vida é misteriosa e bela!.... Quero fruir e conhecer todos os meandros do ser, do existir...em plena consciência.
Quanto às profundezas... eu sei que é um reino ainda maior que o que existe sob as águas dos oceanos. Sabemos muito pouco dessas camadas subjacentes, profundas.
.....................................................................................

Dois dias depois, de manhã, lá pelas 10 horas, o telefone tocou. Era o doutor Platus pedindo para visitar-me imediatamente. Aceitei, dei-lhe permissão. Mas não me preparei, nem me arrumei especialmente. Ele anunciou-se na portaria e subiu. Abri-lhe a porta e ele quis logo abraçar-me e beijar-me. Pus-lhe uma barreira, afastando-o com as palmas das mãos no seu peito. Ele então disfarçou, sentou-se numa cadeira de lona que uso para observar os quadros, deu um assobio, depois voltou a olhar-me nos olhos e disse:
–Alma, Quero conversar com você sobre tudo o que aconteceu. Cheguei a uma conclusão: o fenômeno que ocorreu com você foi muito grave. Tive de traze-la do mais profundo recesso do seu labirinto. Você está consciente de que eu também podia me perder ali? Senti-me perto da morte psíquica. Não quero me vangloriar, mas tive que enfrentar a sua sombra... e ela me apareceu assim tão real como estou lhe vendo. E era...o Minotauro!. Depois, tive de abandoná-la, para recuperar minhas próprias forças. Nesse ínterim, meu pai morreu e eu permaneci um tempo de luto, não podia voltar. Mas isso me permitiu maturar meu plano de resgate. Você viu. Eu estava certo. Você precisava reviver aquela experiência traumática, para voltar a adensar a sua matéria. A dor precisava ser revivida, você me entende. Você me perdoa?
—Mas doutor Platus, porquê o senhor se justifica, se foi tudo para o meu bem, e se o senhor me resgatou, como o senhor diz? Aliás, estou disposta a aceitar isso. Não estou me queixando de nada. Sinto-me até bem, novamente. E a dor física também passou. Mas devo lhe dizer, doutor Platus, que o seu amor não é nada platônico...Também não estou convencida de que eu estivesse jamais traumatizada por aquele evento da minha infância. Aquilo, pelo contrário, libertou-me sexualmente muito cedo, se é que eu pudesse estar presa. Não estou convencida de que o meu desaparecimento recente tenha qualquer ligação com aquele evento da minha infância, embora a ação do doutor tenha funcionado muito bem como chamado à matéria, ou ancoramento, como o senhor diz. De qualquer modo, doutor Platus, sou-lhe grata.
–Alma–ele disse– você é desconcertante : trata aquilo que se passou
como uma simples intervenção cirúrgica. Para mim foi um ato de amor! Você entende? Uma expressão espontânea do amor que sinto por você já há muito tempo. Desde que você adentrou o meu consultório pela primeira vez há um ano atrás. Muito tive que me conter, me reprimir. Você pode imaginar.
–Sim, doutor Platus, eu acredito. Eu imagino. Mas se o senhor está me cobrando uma reciprocidade, só posso lhe dizer que sou grata e que preciso da sua amizade. O senhor me penetrou no seu consultório, como expressão de amor, e eu posso concordar com isso. Sei que é assim. Os homens penetram com violência as mulheres como expressão do seu amor. E nosso orgasmo, já foi um dia chamado de “pequena morte”...
Platus permaneceu olhando-me em silêncio, consternado. Minha reação não era o que ele esperava. Como homem, queria, na certa, que eu me declarasse apaixonada e lhe caísse nos braços exclamando: “Platus, meu amor, toma-me, sou tua. Penetra-me mais uma vez, mais mil vezes, faz de mim o que quiseres, para o teu prazer.” Não, não era esse o homem. E o momento também já passara.
Platus percebeu isso. Olhou em volta, parou em frente de uma grande tela, chamada “Orgasmo”. Suspirou, e partiu.
Decidi interromper a minha análise. Ou dá-la por encerrada. Eu me dera alta.
Eu voltara a mim. Não mais esperava Teseu.

___________________________

Capítulo terceiro

A Volta de Dioniso


Estou pintando muito e maravilhosamente. Só coloco no aparelho músicas triunfais ou alegres, enquanto me movimento rapidamente, manuseando grandes telas, deslocando-as de um lado para outro, dando bravas pinceladas, com gestos largos. Chego a dar alguns passos de ballet entre as telas, com o pincel na mão, o que é, no mínimo, insólito. Faz-me pensar numa coreografia que nunca vi, sobre uma pintora. Deve haver algum ballet assim. Ou deveria haver.
Quando o trabalho rende, no fim do dia a satisfação é imensa. Fico horas olhando meus próprios quadros em processo. Depois começo a querer uma outra espécie de compensação pelo esforço. Um outro tipo de prazer. Queria ser abraçada e possuída... pelo meu amor. Queria que esse amor, quem quer que fosse ele, me dissesse: “Alma, querida, que maravilha, que beleza o seu trabalho. Que coisas lindas você fez... Venha, vamos para o quarto, deixe-me beijá-la da cabeça aos pés. Você relaxará. Quero enchê-la de prazer com o meu amor. Vou lambê-la como a uma bezerrinha, longamente. Abandone-se, Alma, o seu trabalho terminou por hoje.”
Ah! Como eu vivo sonhando!... Nunca ouvi, propriamente essas palavras. No entanto, fui bastante amada, e desejada. Porquê então nada me satisfaz? Quero o amor total, absoluto. Mas o que será realmente isso? Às vezes me ocorre que eu precisaria ser morta pelo meu amor no auge do meu orgasmo, como naquele filme “Império dos Sentidos”, o rapaz pela sua amante. Mas, eu queria ser penetrada por um arpão de carne tão grande que me rasgasse ao meio. Devo ser doida. Ou uma masoquista. No momento só posso contar com o doutor Platus e sua lança sanguinolenta (isso fez-me dar uma risada). Meu sodomizador junguiano emérito...(dei uma gargalhada maior ainda).
Não importa, estou alegre. Vou encontrar um amante, homem ou mulher, não importa, desde que me ame e que me deseje loucamente. A esse ser, eu me darei até meu sangue escorrer.
E se eu chamar aquela pobre Regina, dos cachorrinhos? Ela poderia , num momento, fazer jus ao seu nome? E ela poderia trazer também os cachorrinhos, que lamberão o que sobrar. Ai, estou ficando escabrosa. Bem, quero experimentar também uma maravilhosa pornografia. Realmente, estou ficando louca.
Estou ficando eufórica. Entusiasmada demais, ou exaltada. Devo procurar o doutor Platus afinal. Talvez eu esteja doente. Dizem que a tal PMD é isso: depressão e euforia se sucedendo rapidamente. Mas não, não sinto que seja esse o meu caso. Serei eu uma histérica? Só quero amar e ser amada.
Preciso de serenidade, e não consigo mais vê-la no meu horizonte, estando solitária. As Ilhas Bem Aventuradas! Preciso atingi-las a bordo do navio do meu herói, resgatada dessa Náxos sem forma, sem contornos, limbo dos navegantes.
Vem, meu amor, não mais como Teseu, que me abandonou nesta ilha, mas como Dioniso, alegria há muito esperada. Vem, leva-me para os Elíseos, onde a felicidade nunca acaba, o orgasmo é infinito e não se assemelha à morte. Vem, Dioniso, meu deus hermafrodita, vem em forma de homem ou mulher, eu estou pronta para amar com infinita alegria!
.....................................................................................

Saio uma manhã para andar pelos quarteirões do meu bairro. Preciso fazer exercício. Ando bastante e chego a suar. Volto para casa para me banhar e recomeçar a pintar. Quando reentro na portaria, o seu Ermírio me diz:
– Dona Alma, a sua amiga está aí, esperando a senhora lá em cima. Ela ainda tem a chave, não é? Ela me disse que combinou com a senhora. Fiquei meio sem saber o que fazer, não tive coragem de barrá-la. Ela parece uma boa moça. Fiz bem?
–Sim, sim, seu Ermírio, o senhor fez bem, neste caso. Ela realmente tem as chaves, não as tomei, ela é sempre bem vinda. Obrigada.
Seu Ermírio abriu-me, solícito como sempre, a porta do elevador, e eu mal continha a minha excitação.
Quando toquei a porta do apê, percebi que ela estava aberta. Entrei e tive uma surpresa maior: Vânia descera o seu vestido abaixo dos seios, que expunha nus, linda como sempre, em frente ao meu cavalete, com uma enorme tela azul como o Mediterrâneo, nele, de fundo. Mas, o mais insólito: ela tinha na mão direita, um enorme falo de silicone, extremamente realista, inclusive nas cores. De sua base pendiam correias de couro. Com os braços abertos ela o brandia levemente, e sorria. A safadinha chegou a exclamar um “Tcham!” gaiato, e seus olhos riam como os lábios.
Caímos numa gargalhada imensa, enquanto nos abraçávamos loucamente.
Dioniso voltara, e com ele a duradoura alegria.

domingo, 20 de janeiro de 2008


Desenho realizado pelo próprio Arthur Evans, da estatueta de faiança por ele descoberta, a "sacerdotisa das serpentes". Alma com sua criatividade e bom humor modificou graficamente a serpente da mão direita da estatueta, tranformando-a num "dildo", ou pênis artificial com correias na base, para uso feminino. Ri muito quando encontrei esse desenho colado no fim do manuscrito da Alma. (Lucia Welt) _________________________________________________
_________________________________________________

MAESTRO LIUTAIO (de Alma Welt)



Stradivarius



MAESTRO LIUTAIO

Primeira parte de NARCISO, segunda novela da Trilogia Mítica, de Alma Welt.



Entrei hoje num antiquário, atraída por um violino antigo que vi na vitrine. Está em muito mal estado, mas sua beleza me fascinou imediatamente.
Não sou musicista, nem toco nenhum instrumento, embora tenha estudado balé clássico desde pequena, só parando devido à minha opção pela pintura. Mas sempre tive uma enorme atração por esse instrumento: o violino. Não só pelo seu maravilhoso som, nas mãos de um virtuose, é claro, como por sua forma e delicadeza barroca. Exerce sobre mim um estranho sortilégio, como se eu tivesse algo a ver com ele, com o seu passado, com as suas origens.
Depois de namorá-lo longamente na vitrine, entrei na loja e logo fui recebida pelo antiquário, italiano, Sr. Enzo, homem idoso e solícito que logo perguntou-me se procurava algo especial. Disse-lhe que sim. Que queria saber o preço do violino da vitrine. Ele foi buscá-lo e colocou-o em minhas mãos. Manipulei-o cuidadosamente, ligeiramente condoída de vê-lo tão maltratado, com o tampo superior meio descolado num canto, sem o cavalete, duas chaves e o suporte, sem cordas. Mas suas formas eram belíssimas, e a madeira, com veios maravilhosos, embora o verniz estivesse marcado ou fosco em alguns lugares. Olhei pela frisa, e lá estava:

“ copie de
Antonius Stradivarius Cremonensii
– faciebat anno 1695”

O italiano sorriu vendo a minha atenção a esse detalhe e disse:
–“ Isso é um violino francês, de fábrica, uma cópia de Stradivari, de série. Nada importante. Além disso é um violino de criança, como a senhorita pode ver. Um pouco menor que o violino normal. Mas não deixa de ser um belo instrumento. A senhorita tem bom gosto. A sua madeira é maravilhosa. Mas chegou às minhas mãos nesse estado. Eis aqui o arco. Ainda tem a crina original. Um belo arco, muito bem feito. Aliás, cópia de Stradivari, igualmente.”
Examinei o arco. Olhei cada detalhe cuidadosamente e decidi-me. Disse-lhe:
–Sr. Enzo, fico com ele. Quero-o para enfeite no meu ateliê. Não sou musicista, sou pintora. E acredite-me, lamento não ter esse outro talento, como o grande Ingres, que parece ter sido um razoável violinista. Quanto a mim, sempre quis ter um instrumento desses na mão ou ao alcance do olhar. É quase uma tradição tê-los nos ateliês de pintor, o senhor sabe.
--Claro, senhorita. E em suas belas mãos ele poderá readquirir toda a sua beleza. Vou lhe dar o cartão de um luterista, meu conhecido. Ele o restaurará para a senhorita, se lhe interessar. Acho que vale a pena. A senhorita tem olho clínico. E além disso, quando um instrumento é restaurado, a obra do luterista original se preserva, revive... e ele agradece, lá do seu túmulo, não é mesmo?
Sorri ao sr. Enzo, como apreço por esse comentário. “É o que farei”, pensei, guardando o cartão na bolsa. Vou procurar esse luterista amanhã mesmo.
.....................................................................................

Cheguei em casa e logo pendurei-o numa parede do ateliê. Aquela noite, naturalmente, sonhei com algo relacionado com aquele objeto: Eu andava por um belo bosque, europeu pelo aspecto, pois predominavam os pinheiros, e não se ouviam pios de pássaros, a não ser o canto de um cuco, um tanto irritante. De repente deparo-me com um lenhador que acabara de abater uma árvore, um pinus especial, e serrava um determinado pedaço do tronco para carregá-lo consigo, provavelmente. O lenhador, muito concentrado, olhou-me sem parar de trabalhar, enquanto eu lhe perguntava a finalidade daquilo. Ele respondeu:
– Alma, porque me pergunta o que já sabe?. Deste pedaço sairão mil almas de violinos. Por isso, a minha responsabilidade é grande. Sou o último da minha estirpe a saber escolher o lugar certo de onde retirar o material dessas peças. Só eu sei reconhecer, pela vibração especial, a altura certa do tronco, onde cortá-lo. Ainda mais que em cada árvore essa altura é diferente. Para isso bato com o cabo do machado até reconhecer a vibração ideal em minha mão e um determinado som em meu ouvido. Algo que não se pode praticamente ensinar. Sou um seletor de almas.
— Senhor – eu disse – Sempre soube que o segredo da alma é somente o lugar e o ponto de tensão que ela tem entre os tampos. Qualquer madeira saudável, portanto, serviria na mão de um mestre. O senhor não estará mistificando o seu trabalho, para mim, uma leiga?
–– Menina Alma – ele respondeu – A matéria prima é o segredo de tudo nesta vida. Há almas e almas, algumas não estão prontas, suas fibras não estão bem alinhadas e a vibração não se transmitirá adequadamente entre os tampos, superior e inferior. As madeiras muito antigas, transmitem mais harmonicamente a vibração. Mas é verdade que essas estão escasseando muito neste bosque. Além disso, fui escolhido por votação, pelos luteristas todos da região, pois se eu fosse incompetente, estragaria as árvores, para todos. Perdôo a sua ignorância, somente por causa do seu interesse. Já descansei os olhos sobre a sua beleza, agora deixe-me trabalhar.
Fiquei envergonhada e acordei.

.....................................................................................


De manhã dediquei-me à minha pintura, mas não parava de olhar, a todo instante a minha aquisição. Afinal, procurei o cartão do luterista na minha bolsa e telefonei. Atendeu uma voz italianada, rude, de velho. Um tanto grosseiro e de maus bofes, afinal, marcou hora para mim no mesmo dia.
Cheguei ao endereço, um prédio no centro da cidade, antigo, com aqueles elevadores de gaiola. Subo e depois de quase perder-me por extensos corredores, bato na porta do Minotauro, onde vi uma placa: Bertellazzi, Maestro Liutaio.
O velho, Bertellazzi, abriu a porta e logo virou-me as costas adentrando novamente a sua oficina, mas como resmungava sem parar, deduzi que era para eu seguí-lo. Violinos e violoncelos por toda parte, contrabaixos e até alguns violões e bandolins. Eu estava fascinada, de estar entrando num ateliê de luterista. Um antigo eco ressoou no meu espírito.De alguma forma eu já conhecia aquilo. Bem, como artista, tenho sempre essa sensação difusa, ( mas sem nunca perder o interesse) de já conhecer o mundo, tudo e todos.
O sr. Bertellazi, continuou o que estava fazendo, mas eu estendi o violino, na sua caixa, para ele. Afinal parou, e abrindo-a deu uma olhada rápida, logo fechou a tampa e empurrando-a para mim, disse, impaciente:
–Senhorita, não me faça perder tempo. Isso é um violino de criança, de fábrica, comum. Tenho mais o que fazer.
–Mas sr. Bertellazi – disse eu – não custará muito, repor as peças que faltam e recolar o tampo. Entregue-o a um seu assistente–disse eu– olhando com o rabo do olho um jovem de avental, que ali perto me olhava com atenção.
O velho então pegou o instrumento, virou-o de costas, na vertical, avaliando, talvez, seu prumo, bateu na madeira com os nós dos dedos (percebi-lhe um quase imperceptível movimento de surpresa no olhar). Então chamou o jovem e disse: – “Gino cuide disto aqui. Mas não perca muito tempo com ele, hem? O filho da moça aqui precisa estudar, afinal o gato parou de miar.” Olhou rapidamente minha mão para conferir uma aliança, que não encontrou.
Sorri meio sem graça, com o humor ranzinza do velho e olhei o jovem com mais atenção. Ai! Senti imediatamente o odor característico de encrenca em minha vida. Era um jovem belíssimo, de grandes olhos negros e cabelo ligeiramente encaracolado à maneira romana antiga. E que nariz! Nada que lembrasse o pai, com seu grande nariz de batata, de velho Gepetto sem doçura. Mas o jovem, alto, com belíssimas mãos de violinista e expressão séria e tímida, olhou-me e recolheu o instrumento das minhas mãos, revirou-o e disse:
– Pode deixar senhorita, isso é serviço rápido. Pode passar depois de amanhã, que estará pronto.
Estendi-lhe a mão, que ele, encabulado, apertou, fazendo-me sentir-lhe os calos das pontas dos dedos fortes. Retirei-me um pouco perturbada pelo seu olhar intenso. O velho deu um último resmungo enquanto eu era acompanhada até a porta pelo filho, atrás de mim. Retirei-me sem mais olhar para trás.
Lembrei-me, diante da porta do elevador, que eu sequer perguntara o preço. Mas não quis voltar. Isso ficaria para depois. Afinal, não poderia ser muito caro.

.....................................................................................


Passado um dia, o telefone toca e é Gino, o filho do sr. Bertellazzi:
– Senhorita Alma, o seu violino está pronto. Posso levá-lo aí, se a senhorita quiser, tenho de sair à tarde e aproveitaria para entregá-lo.
– Claro Gino, que gentileza, venha sim. Tomará um café comigo e conhecerá o meu ateliê. A que horas pode vir? (o rapaz, depois de um rápido silêncio, disse):
– Dentro de uma hora, está bem? Ou duas, tenho de passar no banco para o meu pai. Combinado. Até logo.
Continuei pintando mas senti que apenas esperava o jovem deus romano, portador da lira de Apolo (perdoem-me o parnasianismo). Sorri com esses pensamentos e dei pinceladas ao acaso (são sempre as melhores).
Gino chegou depois de anunciar por interfone. Abri-lhe a porta e ele entrou com o violino em sua caixa como numa bandeja. Olhava-me com intensidade e abrindo a caixa retirou o instrumento e seu arco dizendo:
– Senhorita Alma, desculpe a grosseria do meu pai. Ele é assim, e nem sempre tem razão, também. É um violino de criança bastante bom. Na verdade, todo instrumento antigo merece nosso respeito. Foi criado pelas mãos de homens como nós, e que já se foram. Acredito que um pouco da alma desses homens permanece na madeira. A senhorita não acha?
–Acho sim, Gino. Você pegou o ponto. Tenho uma enorme reverência por todo bom trabalho de arte, e esse violino me pareceu um, à primeira vista. Não importa que seja um violino de série, ou de iniciação. Eu vejo, eu sinto nele algo de diferente, embora não saiba dizer o quê. Mas, sente-se, Gino, vou fazer-lhe um café. Mas antes deixe-me examinar o instrumento. Está muito belo. Você fez um grande serviço. Trocou o verniz, além das peças, Gino?
–De jeito nenhum, senhorita. Isso não se faz com um instrumento antigo. O verniz original faz parte do segredo de sua qualidade, do timbre especial, ou pelo menos da sua ressonância macia ou dura, conforme o caso.
Olhei Gino e admirei-lhe a competência, o zelo, e sobretudo, novamente, a sua beleza. Que rapaz! Dirigi-me à cozinha, que no meu ateliê é americana, isto é, uma continuação da minha sala-oficina. Dali podia fazer o café, sentindo pelas costas o olhar de Gino.
Voltei com as xícaras e tomamos o café, olhando-nos nos olhos. Mas ele logo abaixou os seus. Apesar de sua intensidade, era mesmo um rapaz tímido. Eu queria retê-lo mais ali, comigo, e disse-lhe:
– Você aprecia a pintura, Gino?
– Sim, senhorita, mas não entendo a pintura moderna. Entretanto a pintura da senhorita me agrada, mesmo sem entendê-la. Percebe-se que a senhorita maneja bem as cores. Além disso o seu ateliê é muito agradável, acolhedor. Não é como a nossa oficina que tem a cara seca do velho, apesar dos violinos todos por ali. Não é mesmo? (Rimos juntos, esse rapaz era adorável e eu pousei a minha mão sobre a sua, numa gargalhada. Ele parou de rir e baixou os olhos. Fiquei encabulada por um segundo. Estaria eu agindo como uma sem vergonha, oferecida?
Gino levantou-se e disse:–Bem, senhorita, tenho de voltar logo, pois meu pai me espera com os documentos do banco. Gostei muito de conhecê-la e ao seu ateliê.
Paguei o preço que estava numa notinha que ele me estendeu e ao preencher o cheque , disse-lhe:
–Gino, volte, volte mesmo, ou terei de quebrar o violino novamente? Ele sorriu, estendeu-me a enorme mão e encaminhou-se para a porta.
Fiquei só, meio envergonhada das minhas palavras. Senti-me sem compostura. O rapaz tinha um ar tão puro... e eu agi como uma dona de bordel, quase como uma marafona. Ai, que vergonha! Não sou assim, o que deu em mim ? Sou jovem, não preciso caçar ninguém! Por quê o luterista me atraiu tanto? Claro que sei. Ele é belíssimo, e é uma jóia de homem. Puro, meigo, e talvez um tanto primitivo. Tem tudo o que atrai uma mulher como eu. Aliás, eu tenho direito a ele. Porque não? Também sou pura, tenho consciência disso, apesar das minhas paixões, dos meus inúmeros casos na vida, até agora. Sempre fui fiel aos meus sentimentos, e jamais falseei nada, apesar de já te ouvido pelas costas a expressão “Casanova de saias”, que me estarreceu. Mas não me reconheço nisso, sinto-me, na alma, uma eterna adolescente. Na verdade, sinto-me também muito antiga. É uma contradição que não quero aprofundar.
Dirigi-me ao pequeno instrumento para fruí-lo um pouco com o olhar. Ah! por que não estudei violino, quando era criança. Eu não faria o gato miar, como disse o sr. Bertellazzi. De alguma forma eu evitaria isso.
Passei o arco sobre as cordas num suave arpejo. Uma vez só. Ele me pareceu afinado. Olhei novamente a frisa e o selo “Antonius Stradivarius Cemonensii 1695”. Onde estava o “copie de” ? Não era isso que estava escrito na parte superior do selo? Que mistério era esse ? Quis telefonar imediatamente para Gino. Contanto que o velho Bertellazzi não atendesse... Tinha agora um pouco de medo daquele velho. Terei eu a consciência pesada? Mas... se só toquei na mão do donzel! Tive vontade de rir, mas a curiosidade, maior, persistia. O que acontecera com aquela palavra “copie”?
Afinal consegui, a duras penas, falar com Gino. Perguntei-lhe sobre o selo de Stradivarius, e ele hesitou um pouco ao responder:
–Senhorita, não sei, mas acho que aquilo era um pequeno selo sobre o selo. Deve ter caído quando repus a alma. Você sabe, a pinça deve ter tocado o selo, arrancando o papelzinho, deve ser isso. Mas por quê isso a incomoda?
–Não, Gino, não incomoda, ao contrário, veja, se aquela palavra foi adicionada, isso valoriza o meu violino, não vê? Não estava no selo original. Não poderá ser mesmo um Stradivarius? Ele me deu uma sensação forte desde o início, você sabe. Sou muito intuitiva...
–Senhorita Alma, não digo que não. Tudo pode acontecer. Também senti esse violino muito bom. Até toquei-o um pouco e surpreendi-me com sua sonoridade. Além disso, percebe-se que ele é do período barroco, por sua madeira, mais do que por suas formas que são um padrão desde que adquiriram esse desenho, aliás a partir do próprio Stradivari, que modificou ligeiramente o de Amati, seu mestre.. Mas o que quer que eu faça?
–Gino, quero que você venha aqui, e toque para mim, já que você pode fazê-lo. Eu saberei a verdade imediatamente!
–Senhorita, é difícil escapar daqui. O velho me vigia muito. Na verdade, estou farto. Ele me quer só trabalhando, como se a vida não fosse outra coisa. Mas... eu darei um jeito. Darei uma fugida. Afinal, já sou um homem. O velho não pode me tratar mais assim, a senhorita entende...
–Claro, Gino, sei que você conseguirá. Ligue-me da rua quando você tiver conseguido sair. Espero-o ansiosa, quero dizer...

.....................................................................................

Gino estava novamente diante de mim, com o violino na mão. Meu coração, contra minha vontade, batia muito forte.
Ele colocou o violino no queixo e com sua enorme mão, cujos dedos pensei que não caberiam no fino braço do instrumento, com o arco tirou um acorde, parou, torceu imperceptivelmente uma cravelha e começou a tocar. Eu estava maravilhada. Como aquele jovem enorme, com aquelas mãos imensas, podia tirar um som tão delicado? De repente eu o vi como um menininho virtuose, tocando para mim, uma rainha. Desculpem-me a fantasia delirante, mas foi o que senti. O menino Mozart tocando em Viena na corte dos Habsburgo. Eu já sentira aquilo! Sei que não posso mais confiar nas minhas sensações. Como artista, elas são maravilhosas, mas não muito confiáveis. Sempre acho que já vivi tudo no passado. Mas agora!... Eu queria abraçar tudo: o jovem, o menino e o seu violino, junto com aquele som portentoso que enchia o meu ateliê e fazia vibrar mais ainda as minhas cores sobre as telas. Explodi em lágrimas. Gino parou de tocar e me olhava também ofegante. Pousou o violino sobre a minha prancheta de desenho, e abraçamo-nos, loucamente, aos beijos. Eu queria renascer. Eu queria Mozart, eu queria Stradivarius!

......................................................................................

Acordei de um leve sono em seus braços na minha cama. O seu largo peito, sem pelos, apenas uma leve penugem no centro, parecia seda sob minha palma. Seus olhos cerrados de grande pestanas negras. Sua boca de deus grego, seu nariz romano. Eu os beijei mais uma vez, e os cantos dos seus lábios curvaram-se ligeiramente num sorriso, delicado para um homem, como o da Monalisa. Coloquei-me novamente sobre ele, e cavalguei-o sem escrúpulos pelo seu leve sono. Eu o senti enorme e profundo dentro de mim e suguei-o como se tivesse direito ao seu sumo, à sua riqueza de jovem puro, viril. Na verdade eu tinha mesmo esse direito. Minha beleza e juventude me legitimavam, apesar de sentir a minha alma muito idosa. Mas ao mesmo tempo, eu rejuvenescia em minha alma, ao fazer isso, e me tornava uma menina, brincando com o jovem Mozart, debaixo do piano. Esse pensamento me fez dar uma gostosa gargalhada que o fez abrir os olhos. Caí sobre o seu peito com a minha boca colada à sua enquanto ordenhava-lhe o membro com a minha vagina, num espantoso e instintivo pompoarismo. Ele explodiu dentro de mim, como música.

......................................................................................

Encontro-me com Gino uma vez por semana. O velho Bertellazzi, o mantém num cortado, e admira-me que Gino consiga sequer sair, ter vida própria. Começo, naturalmente a insuflar o meu jovem amante a se rebelar, e a libertar-se do jugo do velho. Esta jóia rara tem direito à vida, não somente aos violinos alheios. Quero dar-me a ele como um prêmio ou uma compensação pelo seu talento e pureza. E pelo seu velado sofrimento de prisioneiro do ofício.
Quando ele vem ao meu ateliê peço sempre para ele tocar, enquanto debulho-me em lágrimas. Não sou uma grande expert, mas parece-me tocar divinamente. Então, caio-lhe nos braços e o arrasto para o meu leito. Quero dar a ele também todos os meus sumos. Quisera transformar-me em música para o meu amado. Esse menino grande, meu pequeno Mozart encerrado no corpo de um deus grego!

.....................................................................................



O telefone toca. Ouço a voz áspera do sr. Bertellazzi:
– Senhorita Alma. Aqui é Bertellazzi. Quero que se afaste do meu filho, está ouvindo? A senhorita o está desencaminhando. Ele tem o seu ofício, os seus deveres. Não pode ficar rolando por aí, está me ouvindo?
Fiquei tremendamente embaraçada, envergonhada. Senti-me como uma prostituta, no mal sentido da palavra (eu, que gosto tanto delas, teoricamente). Só pude gaguejar:
– Sr. Bertellazzi, o senhor está me ofendendo. O sr. não tem esse direito. Sou uma moça direita. Além disso eu amo o seu filho, esteja certo disso. Só quero o seu bem, e ele tem direito à vida e ao amor, o sr. não acha?
– Senhorita, se é assim então case logo com ele e deixe-o trabalhar. Não, não! Somos homens simples, do trabalho, e a senhorita me parece gostar demais da vida e menos do trabalho. Estou certo? Como posso saber se a senhorita é sincera? O menino é simples como eu, e a senhorita é muito sofisticada. Isso não pode dar certo. O menino vai se machucar. Seria melhor esquecer tudo isso e deixá-lo em paz!
–Mas sr. Bertellazzi, eu já disse, nós nos amamos, e isso não tem mais jeito. O sr. deve saber. O sr. deve ter amado a sua esposa, visto que Gino saiu assim tão belo... Separar-nos agora produziria uma dor insuportável em nós dois. Por favor, sr. Bertellazzi, tenha paciência! Não sou uma qualquer, sou uma artista famosa, posso fazer o seu filho feliz... Está me ouvindo?
–Bem, senhorita. Pense bem. Pense muito bem no que está fazendo. Não suportarei ver o menino sofrer. Passe bem!
Fiquei com olho parado muito tempo. Depois uma dor súbita tomou-me o peito. Uma angústia, ai! uma angústia. E explodi em lágrimas, de amor. De amor perdido? Sim, eu o sentia escapar entre os dedos da minha alma, por assim dizer. Achei que não suportaria mais viver sem Gino. Eu, que o via somente uma vez por semana, mas que me dissolvia nele, na cama, em seus braços, e em sua alma jovem, pura.
Eu não poderia perder Mozart. Ele era meu! Eu lutaria.

.....................................................................................

Fiquei esperando o próximo telefonema, que sabia que seria de Gino. Dito e feito. Atendi sofregamente, e a sua linda voz grave, disse-me ofegante:
– Alma, meu amor, quero vê-la já. Briguei feio com meu pai. Vou sair de casa. Vou deixar a oficina. Ele está desesperado, mas nada pode fazer. Percebi que ele evitou falar muito mal de você. Isso também me preocupa, pois parece que ele está sofrendo de um jeito diferente dele mesmo. O quê vocês conversaram, Alma? Bem, vou aí, já. Falamos aí. Espere-me.
Dali a 40 minutos que me pareceram uma eternidade chegou Gino. Abraçou-me dizendo:
– Meu amor, meu amor. Eu quero você. Nada vai me separar de você, Alma, eu não agüentaria! Não agora! Você é minha felicidade. Não aceito perdê-la!
– Gino – eu disse, quase sufocada em seus braços – Eu sei, eu sei. Também não aceito perdê-lo, meu amor.
Eu me sentia como uma Camille, a dama das Camélias, mas não estava tuberculosa, nem disposta a renunciar ao meu amor. Não incorporara preconceitos, e estávamos no século XX. É verdade que ele era um luterista, filho do maestro liutaio, e eu uma pintora famosa. Mas as semelhanças com a belle-époque deveriam parar por aí. Mas ai! o meu romantismo, o romantismo da situação era um fato, em nossa alma, e nas nossas circunstâncias. E eu queria morrer de amor e dor... do medo de perdê-lo.

.....................................................................................


Levanto-me nua dos braços do meu amado. Ponho um CD no aparelho. Paganini. Caprichos Opus 1, Andante Cantabile, para violino. Fico olhando muito tempo o meu homem, que ressona, nu, em meu leito, belo como Eros sob a luz do lampião de Psiquê. Mas não o queimarei no ombro. Ele não precisará alçar-se, abrindo as grandes asas. Não me agarrarei ao seu pé, e não cairei ao solo. Não descerei ao Hades. Recuso-me. Se possível.
Mas ai!, todo amor, quando grande, não segue sempre este mesmo roteiro, esta mesma trajetória ascendente e descendente, em ciclos?
Comovo-me com a nossa beleza e nossa dor e sei que a minha vida é excepcional em sua intensidade. Foi-me dado esse doloroso privilégio, como artista, de viver tudo e todos os amores... para terminar sempre sozinha, no final. Mas não é esse mesmo o potencial e o destino de toda a humanidade? Volto ao meu amado e aninho-me no seu peito, envolvida pelas ondas do violino mágico de Paganini, nos braços do jovem Mozart, violinista mais antigo, sem o toque maldito do italiano. Não quero a dor, não quero a tragédia. Quero o amor e a Alegria que colhe as espigas de ouro da vida, com sua eterna dança da colheita. Quero Beethoven da sexta sinfonia e do coral da nona. Alegria, alegria, eu me coloco entre as suas asas, leva-me ao Olimpo, Alegria!

.....................................................................................

Gino me ligou para contar-me que seu pai está muito doente:
–O velho decaiu subitamente e olha-me com um ar de preocupação, se não de censura. Agarra-se a mim e pede-me que não abandone nunca a oficina. Pede-me que tenha filhos e ensine o ofício a eles. Creio que o velho vai morrer. Ele quer falar com você, Alma. Quer que a traga até junto do seu leito para falar-lhe em particular. Não sei o que ele quer. Receio que... Mas não importa, vou buscá-la e levá-la até a nossa casa, está bem?
–Certamente, Gino. Estou pronta para falar novamente com ele, eu já esperava algo assim . Mas nada tema. Nada que ele possa dizer vai separar-nos, está bem? E ele também não vai morrer, espero. Ele deve estar fazendo um pouco de chantagem emocional, você sabe, os velhos são assim...

.....................................................................................

Chegamos, afinal, juntos, a uma grande casa velha, no bairro do Bexiga, um sobrado um tanto escuro, decorado de maneira carregada, como o fazem os italianos de província, num estilo demodée. Na verdade, com objetos verdadeiramente antigos, passados de pai para filhos e trazidos desde a Itália. Principalmente os quadros e pequenos objetos. Aquilo causou-me uma estranha sensação, como se estivesse entrando num filme de Visconti. Subimos a escada forrada de passadeira e logo entramos num grande quarto, penumbroso, sobrecarregado, onde, num grande leito de madeira, de cabeceira entalhada, estava deitado o velho Bertellazzi. Levei um susto ao ver que o velho estava realmente mal, a julgar por seu aspecto, por sua cor . Tinha envelhecido muito, tão rápido, e já se viam os ossos do crânio, sob suas órbitas encovadas.
–Sr. Bertellazzi, o sr. está me ouvindo? Sou eu, Alma. O sr. está acordado? Eu vim vê-lo... e ouvi-lo, senhor.
–Alma– ele sussurrou.– Que bom que você veio. Tive um sonho, e a Virgem me disse que posso entregar meu filho a você. Ela disse que você é pura, e não machucará o menino. Queria dizer-lhe isso, somente. Agora está tudo bem . Quero que sejam felizes. Cuide do Gino. E você, Gino, cuide dela. A oficina... não a deixem. Tenham filhos e ensinem-lhes a nossa arte. Somente lhes peço isso. Não pode haver felicidade, se um homem abandona o seu ofício. Tudo perde o sentido. Lembrem-se...
O velho abriu a boca, sem ar, e estertorou num longo gemido... fechou os olhos e parou. Estava morto.
O espaço, em torno encheu-se de gemidos e do som de soluços. Alguns desses sons partiam de mim mesma, eu percebi.

_____________________________________________________________


Narciso
(Segunda parte da Trilogia Narciso (continuação de "Maestro Liutaio", de Alma Welt )



Gino veio morar comigo, em meu ateliê. Está arrasado com a morte do pai. A depressão o pegou em cheio. Quase desmaiou no velório, e teve que ser retirado do recinto, meio carregado, por parentes e por mim. Depois, o seu desespero tinha o timbre do sentimento de culpa, e temi, por isso, que afetasse a nossa relação. Quanto a mim, não me sentia culpada. O velho me absolveu com suas palavras no leito de morte. Por isso, apesar de tudo, o meu coração não estava pesado a não ser pela dor do meu amado.

Eu sabia que Gino recuperaria a serenidade, talvez a alegria. Esses italianos têm grande dependência da figura paterna. Padre Patrone. Bem, na verdade, a humanidade, de um modo geral, é assim. Quanta à Mamma, nem se fala. Mas, o velho era viuvo há muitos anos. A mãe de Gino morreu quando ele era ainda adolescente. Na verdade, esse fato paralisou o seu crescimento emocional, ali naquela data fatídica. Gino permaneceu um garoto em sua alma, o que lhe confere esse encanto, essa pureza, que me seduziu. Mas sei que essa contradição é perigosa. Freqüentemente causa graves desequilíbrios na personalidade, como alcoolismo, droga-adição ou neurose. Bem, isso é o que se sabe, atualmente. Mas Gino, não. Permanece belo como uma criança divina, e eu quereria, às vezes, recolhê-lo ao meu útero, esse garoto enorme e doce, capaz de tocar belamente um instrumento que ele é capaz de construir.

Aliás, devo reconhecer que a formação de ofício, neste sistema de pai para filho, costuma dar certo, e é a base da integridade e do caráter forte dos camponeses e operários. Filho de camponês, camponês, de artesão, artesão. Há uma certa beleza nisso. Eu jamais quereria tirar o Gino de sua profissão artesanal. Não fosse eu como pintora, uma artesã, também .

Gino afinal reabriu a oficina. Os outros, empregados já estavam impacientes, necessitados de trabalhar. Quando Gino assumiu, incentivado por mim, fê-lo com a dignidade de patrão, consciente, embora nada autoritário. Sua doçura não permitiria essa postura. E eu mais o admirava por isso.

Eu observava o meu amor, que crescia diante dos meus olhos, como homem, abrindo suas asas.

Eu ia quase diariamente buscá-lo, ao final do expediente, um pouco antes do término, só para observá-lo um pouco, finalizando o seu trabalho do dia. Que habilidade! Que conhecimento da técnica e dos materiais! Então, ele pegava o melhor instrumento de cliente, e tocava um pouco para mim. Às vezes, fazia escalas de Paganini, complicadíssimas, para me mostrar o seu virtuosismo. A sala e o prédio inteiro se enchiam daquele som miraculoso, e parecia que um silencio reverente se instalava simultaneamente àquele som, naquele agitado prédio comercial, pouco antes do final da jornada. Eu, então o abraçava e beijava muito.

Depois, saíamos de mãos dadas, cumprimentados, me parecia, pelos funcionários e empregados de escritório, ascensoristas, etc. Eu vivia uma linda experiência, e era feliz...

Em casa, eu lhe preparava o jantar, e punha sempre um candelabro no centro da mesa, com velas. Eu fazia questão dessas velas acesas, à mesa, no cotidiano. Meu amor jamais deveria perder o seu romantismo. Todos os dias seriam de celebração.

Eu o levava cedo para a cama, para dar-me a ele... e toma-lo também, durante horas e horas, até adormecermos, nus, nos braços um do outro, freqüentemente com o seu membro dentro de mim, que escorregava lentamente, e se retirava, já que eu não podia retê-lo para sempre.

Não podia retê-lo... ai de mim, esse pensamento crescia , às vezes, na minha mente e me perturbava. Eu lutava contra esse sentimento, essa preocupação tão perigosa, tão inimiga do Tao, a que me dispusera a partir de um certo dia da minha vida. “Não me preocupar. Eis a providência que preside o meu destino!” Dizia o mestre Nietzsche.

Mas o talento crescente de Gino para tocar o violino, não somente para construí-lo ou concertá-lo, começou a fazer a sua exigência. Chegou, quase que naturalmente, o dia da sua estréia como concertista. Um casal amigo nosso, tomara a empreitada e o estava empresariando.Conseguiram-lhe um bom teatro, com excelente acústica; reliese, entrevistas, e o apoio de um maestro famoso, que se impressionou com o talento de Gino, vendo nele uma futura estrela internacional. Quis tratá-lo como sua descoberta, agindo de maneira um pouco invasiva e dominadora, o que me causou ciúme e revolta. Parecia que ele me queria roubar Gino, e nosso antagonismo se instalou. Como eu não era musicista, tratava-me como uma intrusa, “uma estranha no ninho”, o que me deixava indignada. Um dia, quase me esfregou uma partitura na cara, e eu, que tenho pouco a presença do Animus, explodi em lágrimas e somente consegui protestar. Eu não sabia ler uma partitura, mas o Gino precisava de mim, mais do que para simplesmente virar-lhe as páginas na estante. Aquilo não era justo. Sou uma artista! E sou o seu amor, a sua amada, a sua Musa! Isso ninguém me tiraria. Por um momento conheci o ódio em minha vida. Eu soube, por um segundo, o que é a vontade de matar! Aquele maestro, aquele tirano! Perto dele o falecido Bertellazzi era um anjo, e eu pedi, em pensamento, a sua proteção.

Afinal, chegou o dia da estréia. Gino estava belíssimo no fraque que eu lhe aluguei. Permaneci na coxia, vestida com um longo, com os olhos fixos no meu amor. Eu sabia que seria uma estréia consagratória. Quando fez-se silêncio, um segundo antes dele tocar as cordas com o arco, ele dirigiu-me um olhar profundo, que até o público deve ter percebido. Meu coração iluminou-se e ficou pronto para receber plenamente a música do meu amado. Ele tocava o famoso e indefectível concerto em Ré Maior, para violino e orquestra, de Tchaicovsky. Tocou como um deus da música. Eu estava flutuando, e então, subitamente, levantei-me da cadeira em que estava, na coxia, e como uma sonâmbula, caminhei, hipnotizada, para o palco em direção àquele violino mágico. Parei a três passos de Gino, que tocava sem olhar para nada, concentrado. A platéia fez um Oh! uníssono. Houve alguns risos. Em seguida, uma explosão de palmas em cena aberta, um segundo antes dele dar os últimos acordes. Ele olhou-me surpreso e abraçamo-nos. O teatro veio abaixo.

Saímos carregados de flores. Eu recebera uma grande corbeille em pleno palco, sob o olhar de censura do maestro. Fiz uma reverência ao público, como se o espetáculo tivesse sido meu também, o que causou mais risos. Saímos do palco ovacionados. O público queria o nosso retorno, um biz, sei lá. Eu quis me retrair, mas Gino puxou-me pela mão e arrastou-me ao palco, novamente, para a continuação dos aplausos. Mas eu perdera a expontaneidade, envergonhada, e fiz um movimento rápido de coluna, e fugi daquele palco, produzindo mais gargalhadas e mais aplausos, eu percebi.

No dia seguinte, saíram manchetes em revistas, registrando a “nossa” performance. Dividi com Gino as entrevistas. Os jornalistas tratavam-me como a musa de Gino, e eu estava dividida em meus sentimentos. Não me perguntavam sobre a minha arte. Não me entrevistavam senão como mulher de Gino, e sua Musa. Não queriam nem ouvir falar de minha pintura, mas elogiavam muito a minha beleza... e a minha atitude naïve, ou expontânea, que caíra no gosto do público. Eu quis recolher-me logo à minha reserva, de artista de uma outra área, menos festejada neste nosso país. Mas era tarde. Era fotografada a todo instante. Saí na capa de revistas, como a musa da temporada, e não tardou uma famosa revista masculina fazer-me a proposta de posar para o que eles chamavam de “ensaio fotográfico artístico”. Uma oferta muito alta, mas que desconsiderei. Comecei a ficar perturbada. Aquilo tudo parecia me desviar de um caminho que, afinal, eu havia, como pintora, traçado para mim.

O editor encarregado da matéria, chegou a mostrar-me o cabeçalho do ensaio, que daria o teor do texto: “Por trás de um grande violino, há sempre uma bela mulher.”

A rigor, eu não poderia ficar ofendida com isso tudo. Era até um tanto lisonjeiro, por um lado. Mas eu sabia que era perigoso e poderia destruir a seriedade da minha carreira. Meu marchand estava indignado, com essa perspectiva... e preocupado. Quanto a Gino, mantinha aquela candura, e o seu ar um tanto vago, de menino sagrado. Na verdade, aquilo tudo podia também prejudicar o início de sua carreira, colocando-a sob suspeição, ou desviando a atenção do real talento que ele tinha.

Então resolvi retrair-me e não mais aceitar entrevistas ou reportagens desse teor. Mas eu já estava na capa de algumas revistas e tive que fugir de São Paulo, refugiando-me numa fazenda, com Gino, que começava a ficar perturbado. Ele precisava estar no centro do movimento musical, não poderia ausentar-se. O maestro invectivava contra mim ao telefone interurbano, dizendo que eu estava raptando Gino. Queria que ele voltasse imediatamente, que ele precisava ensaiar um próximo concerto, que havia toda uma expectativa, e que a carreira de Gino começara a decolar, e ele não podia desperdiçar isso, desviando-se de sua “meta”, “perdido nesse amorzinho aí!” Eu ficava indignada, desse maestro malbaratar assim o nosso amor. Mas eu não queria perder a serenidade. Meditei bastante e disse a Gino:

–Meu amor, você deve voltar a São Paulo, você não acha? Realmente não é um bom momento para você ausentar-se. É muito cedo para umas férias, na sua carreira nascente. Volte lá, querido, enfrente aquela fera. Mostre todo o seu talento, que você se imporá ao mundo. Eu preciso ficar por aqui...um tempo. Sinto-me em perigo lá, em São Paulo, com aqueles jornalistas, com aquelas revistas e toda aquela tentação. Nua, só para o meu amado, não é?

Ele sorriu, abraçou-me, e concordou em partir.

.....................................................................................

Fiquei três semanas vagando naquela fazenda. Comecei a escrever poesia de cordel, e surgiu , inusitadamente, uma versão do mito de Narciso, em versão sertaneja. No meu cordel a ninfa Eco, que tanto corria atrás dele, se chamava Dadá, nome balbuciante, que insinuava repetição. Pensei no destino da pobre ninfa eco sertaneja. Por necessidade de rima e métrica, eu sugerira a sua petrificação, com uma única palavra: aquietou. Mal sabia eu, também, que escrevera algo premonitório, um aviso que eu recebera das musas do Sertão, que passaram a me visitar. Essa nova fase da minha criatividade, me compensava o sentimento de solidão que eu poderia sentir com a ausência de Gino. Escrevia além de cordéis, cartas apaixonadas a Gino, que agora, mal tinha tempo para responde-las. As suas cartas foram rareando até que cessaram. Eu evitava telefonar muito para não dispersá-lo de seus estudos, de sua concentração. Mas, o peito começou a doer. Juntei minhas coisas. Coloquei meus cordéis por cima das roupas na mala e toquei para São Paulo.

O que eu não esperava, acontecera. Gino estava envolvido com uma violoncelista da orquestra. A afinidade musical falara mais alto. Além disso ela era bela, encantadora. Senti uma punhalada no peito.

Eu cambaleava no ateliê, de dor. Eu repetia: Gino...Gino. Ele voltou para sua casa, no Bexiga, fechada desde a morte do pai. Ali ele recebia a cellista, e tinham suas noites de amor. Eu queria morrer. Ele me procurava também e estava dividido, queria deitar-se comigo, igualmente, e eu permitia, claro, e me esmerava, para reconquistá-lo. Mas acabava gritando, contra a minha vontade, esmurrando-lhe o peito. Tudo aquilo que eu odiava ver nas outras , ou no cinema, eu estava fazendo. Cenas de ciúmes, baixarias. Uma tarde, enquanto ele estava quase ejaculando dentro de mim, retirei-o de dentro, e ele explodiu no ar como um chafariz branco, atingindo-me no rosto. Limpei-me na penugem do seu peito e afastei-me. Ele ficou envergonhado, se não frustrado. Disse:

–Alma, querida, o que é isso? Você nunca se furtou a recolher-me dentro de si. Eu a amo, Alma. Compreenda, eu estou dividido, mas, o que é seu ninguém lhe tirará!

–Não quero você pela metade. É tudo ou nada. Você entende, homem?!

–Alma, você nunca foi assim. Você não é uma burguesa. Você sempre foi tão livre. Porque isso agora? É só uma fase! Tenha paciência, isso passará.

—Gino (dei um soluço, eu perdera afinal o controle)– você está me matando. Se você não deixar aquela mulher, eu vou lá e a encaixotarei naquele celo, e a mandarei para o oficina do Gino, o “maestrino liutaio”, para diagnóstico do mau som. E do mau cheiro! (Eu estava louca, falava absurdos).

Gino, perplexo, consternado, calou-se e ficou ali deitado encolhido na cama, nu, em silêncio. Retirei um espelho da parede e coloquei-o deitado ao lado da cama, no ponto onde ele olhava, fixamente, para o chão.

.....................................................................................

Nossa relação se deteriora. Eu sentia meu peito corroer-se por dentro. Eu tinha que transformá-lo em pedra, ou ele se desfaria em cinzas. Eu disse:

–Gino. Vá embora de uma vez e não volte. Não posso mais viver assim. Eu o amo demais para dividi-lo com aquele seu espelho feminino. Vá para ela, transformem-se numa flor e seu reflexo. Mas saia da minha vida. Eu tenho que criar, eu tenho que pintar. Não serei a sua vítima. Recuso-me.

Gino, tristemente, recolheu suas últimas roupas numa mala, com um brilho molhado nos olhos. Dirigiu-se à porta. Uma lágrima, afinal, correu em seu rosto.

Corri em sua direção, abracei-o fortemente, soluçando, os dois. Mas, de repente, desvencilhei-me dos seus braços, empurrei-o para fora e bati a porta com as minhas costas.

Eu me transformara, afinal, numa pedra. Toda a dor imediatamente cessou.



FIM


28/10/2002

_____________________________________________________________

O Violino de Mozart
(Terceira e última parte da novela Narciso, de Alma Welt)


Gino prosseguiu triunfante em sua carreira de solista. O seu caso com a violoncelista não durou muito. Mas isso já não me dizia respeito. Eu acompanhava de longe a sua carreira. Por assim dizer, eu captava os ecos, não os emitia. Eu me retomara. Lentamente recuperei-me e voltei a ser a Alma que sempre fui. Alegre. Feliz mesmo. Estava pronta pra outra. O que estou dizendo?. Não, paixão nunca mais. É doloroso demais, no final. É “o Inferno, em vida.” Queria o amor, mas não a paixão. Eu já me conhecia, e sabia da minha vulnerabilidade ao outro, à presença apaixonante do outro. Porque sou assim? Porque me entrego tanto ao ser amado? Porque os amo tanto, a esses homens e mulheres que me tocam as cordas sensíveis, do meu instrumento amoroso? Esses virtuoses, freqüentemente malditos, que fazem soar o violino da minha alma, de maneira celestial, ou diabólica. Não quero isso. Como defender-me... de mim mesma? Não há muito a fazer. Sou um marionete dos deuses, e eles “gostam de fazer sofrer os seus amados”. Não é isso que diziam os antigos?
Estou pintando uma enorme tela, onde refletem-se os últimos acontecimentos da minha alma, numa superfície líqüida azulada, como signos simplificados, ilegíveis para os leigos, ou, pelo menos para os que nunca foram vítimas da paixão.
Meus amigos me procuram, alegres, e saúdam meu reviver. Festejam a volta da alegria ao meu atelier, e fazem comovedoras demonstrações de carinho. Trazem-me flores, pequenos presentes. Alguns velhos amigos cortejam-me de maneira perigosa. Ainda assim posso contar com a sua amizade, bastando que os mantenha na linha, à distancia segura.
Quanto às amigas, bem... na verdade, a mesma coisa. Pelo menos num caso. Vânia tinha um tom levemente ambíguo na sua amizade, e lisonjeava-me demais. Além disso, era excessivamente carinhosa, fisicamente. Mas eu não me importava. Era uma bela moça, e ela me distraía. Sua presença me era agradável, e isso é o termômetro da amizade para mim.
Mas, um dia , Vânia chegou no meu ateliê aos prantos. Jogou-se em meu sofá, e soluçando, disse:
–Alma, Alma!... Não posso mais. Eu não agüento mais. Eu preciso desabafar. Tenho de tirar isso para fora do meu peito, trancado há tanto tempo. (Parou... levantou-se com o rosto todo molhado, os lábios trêmulos, e continuou):
–Alma, eu a amo. Eu a amo. Não posso mais!
Surpresa, eu indaguei:
–Quem você ama, Vãnia? O que você quer dizer?
– Você, Alma, você! Não vê? Não percebe? Eu a amo há muito tempo!
“Ai, meu Deus, aqui vou eu, novamente”, pensei...
–Vânia, Vãnia, você deve estar confundindo as coisas. Nossa profunda amizade, nossas afinidades, não é?
–Não, Alma. Pare de falar assim. Não menospreze o meu amor. ( Ela caiu-me aos pés, dramaticamente, abraçando-me as pernas. Eu estava trêmula de emoção. O amor alheio, quando intenso, me coopta, me seduz. Ergui-a pelos ombros, e a abracei. Ela soluçava forte em meu ombro, e eu então peguei-lhe a mão e a conduzi até o meu quarto. Pus-me em frente ao leito e desnudei-me em sua frente, deixando a roupa cair. Estendi-lhe os braços. Ela correu três passos e atirou-se sobre mim, derrubando-me na cama. Deixei-a fazer o que quis. Ela parecia querer devorar-me, saciar-se. Confesso que meu prazer atingiu um pico nunca imaginado, nem com homens. Nem mesmo com Gino. Larguei-me, passiva, para que essa louquinha pastasse sobre mim . Ela me lambia sofregamente, todinha, como numa fome, numa sede de anos, de séculos. Fiquei com o corpo todo molhado de sua saliva, dos pés à cabeça. Essa foi uma das sensações . Ela deteve-se, afinal, lá em baixo, e parecia querer entrar inteira em minha vagina. Lambendo-me, chupando-me, beijando e mordiscando meu clitóris, com sofreguidão. Tive os famosos orgasmos múltiplos, como nunca tive igual com homens. Abandonei-me até mesmo quando ela enfiou-me os dedos, forçando, até que conseguiu enfiar o punho todo em mim Retorci-me em volta do seu braço, enquanto ela abria a mão dentro de mim, e a remexia, com um barulho de caverna aquosa. Desmaiei.
Acordei com Vânia ao meu lado, de bruços. Admirei-lhe a bundinha perfeita, redonda, e a penugem dourada que a recobria à luz do sol que entrava pela janela. Sua vulva, como uma conchinha, insinuava-se por trás, rosada. Aquilo era uma promessa de prazer. Eu não precisaria mais do amor de um homem. Eu também me transformaria em narciso. Um narciso de saias. Tiraria um saudável proveito lúdico do amor sáfico, que prometia surpresas ainda mais prazerosas, embora eu já o conhecesse bem, há muito tempo...
Ah! Como eu me iludia, mais uma vez! Logo ao acordar, Vânia insinuou o timbre possesivo do seu amor. Começou por botar-me um olhar de proprietária, e disse:
– Alma, você agora me pertence. Quem se aproximar demais, ou quiser tirá-la de mim, eu mato. Eu mato. Ouviu bem?
Arrepiei-me toda e suspirei. Lembrei-me do meu doce Gino, quase feminino em sua doçura. Esta pequena virago, me saíra pior que a encomenda. Eu estava enrascada. Mas ela não sabia que esta Alma é livre. Que ninguém pode domá-la ou apossar-se dela. Só o meu próprio amor pode dominar-me. Só a minha própria paixão pode aprisionar-me. Ainda assim , temporariamente.
Como disse, não tenho um Animus forte. Sou uma Anima-possuída, no dizer de Jung. Ainda assim, em ocasiões como essa, reuno as minhas forças e reajo, com uma leoa. Talvez, com a excessiva ênfase dos fracos.
–Alto lá, Vânia! Ninguém me doma não. Eu me entreguei só no aqui e agora. Mas você não é minha dona! Se você insistir nesse tom, dou-lhe um “chega pra lá”!
Vânia imediatamente encolheu-se, caiu de joelho, nua, e andando assim de joelhos, meio grotescamente, veio abraçar-me as pernas. Com a cabeça colada às minhas coxas, ficou uns segundos, assim, em silêncio. Depois disse:
–Perdoe-me, meu amor, perdoe-me. Eu me excedi. É que você me deixa louca, Alma. Estou louca de amor e desejo por você. Há muito tempo sinto isso. Quando você estava com Gino eu me masturbava pensando em você. E pensar nele possuindo você, só não me matava porque eu me imaginava no lugar dele. Eu me projetava na imagem daquele belo gigante tímido, e só assim eu conseguia conviver um pouco com vocês. Agora que ele se foi, eu sabia que chegara a minha vez de tê-la inteira, minha deusa. Perdoe-me. Prometa que me perdoa e que compreenda estes meus sentimentos. Você é linda demais. Você deixa as pessoas loucas por você. Você não sabia? Não sou apenas eu entre as mulheres, e entre os seus amigos. Por isso tenho medo, e queria cercá-la com o meu amor. Agora que a tive, nessa noite maravilhosa, não posso imaginar perdê-la, Alma. Você entende?
–Vânia, calma. Você não vai perder-me. Sabendo usar não vai faltar ( como pude dizer uma vulgaridade como essa? Tive vontade de rir )–Mas não avance demais. Tome tento, menina. Eu não tenho dono ou dona. Nunca terei. Vá devagar. Pegue leve, como se diz.
Vãnia afinal acalmou-se, e passamos um dia agradável. É verdade que ela queria tocar-me o tempo todo, e eu temi que ela se tornasse meio “grudenta”. Ao pensar nisso, descobri a diferença do verdadeiro amor, e mesmo, da paixão. Apaixonada, eu jamais quereria sair dos braços do meu amor. Eu o quereria dentro de mim , sob a minha pele, ou então entrar dentro dele. Se eu sentia algum incomodo com a sofreguidão física da minha amiga, era porque...
Bem, deixemos fluir. Lembrei-me do Tao. Se eu não lembrar dele, vou afligir-me, irritar-me, ou ainda, fragilisar-me. Pior: me sentirei culpada de não corresponder à paixão de Vânia, seu sedento amor.

.....................................................................................

Passei a ser vista em sua companhia. E novamente começou o disse me disse. Principalmente porque Vânia fazia questão de dar-me a mão a toda hora e abraçar-me em público. Como ela era bela e feminina, isso enternecia os homens, ou os excitava, mas desnorteava as mulheres e as irritava. Percebendo isso, comecei a entrar no jogo e a brincar de apaixonada também, em público. Que jogo perigoso! Isso era jogar mais lenha na fogueira da Vaidade, quero dizer, da Vânia.
Um dia, porém, veio a notícia. Gino voltara do estrangeiro. Consagrado, um grande virtuose. Gravara CDs na Europa e nos Estados Unidos. Recebera um violino Amati, da Comunidade Musical Italiana. Era cortejado por uma legião de fãs. Espantei-me de vê-lo tão bem , tão belo, na televisão, ainda com aquele ligeiro ar de garoto. É verdade que ele estava mais senhor de si. Sua experiência internacional o tinha feito desabrochar. Era um homem pleno, mas... Percebi-me em lágrimas diante da televisão. Ainda bem que Vânia não estava ali, nessa hora. Ela teria quebrado o televisor, ou me atacado de alguma forma. Ela que não ousasse nunca fazê-lo. Eu a tocaria para fora, tenho certeza.
Dali a pouco chegou ela, trêmula. Olhava-me fixamente, apavorada. Disfarçou, mas eu percebi que ela já sabia que Gino voltara, e que
procurava esconder esse fato que gritava dentro dela, como dentro de mim. Mas no transcorrer da noite, ela não agüentou, e disse afinal:
– Alma, Gino voltou. Se ele vier aqui, barrar-lhe-ei a passagem. Alma, juro-lhe, eu porei fogo às minhas roupas e me atirarei sobre ele, antes mesmo dele transpor essa porta.
–O que é isso, Vânia ?–eu disse– Deixe de ser dramática. Pare com isso. Pegue leve, eu sempre lhe digo. Não gosto disso. Não suporto a tragédia. Só gosto delas nos meus cordéis, como você já viu. Vamos, sossegue.
–Está bem, Alma, mas você me ama? Me diga mais uma vez, Alma. Você me ama?
–Sim, Vânia, sim, eu a amo, querida. Vamos, o que é isso?–abracei-a enquanto ela tremia de emoção e medo. Temi que ela estivesse ficando doente... de paixão. Era isso! Ela estava doente.

.....................................................................................

Recebi, afinal, um telefonema de Gino. Queria ver-me, imediatamente. Ia apresentar-se no Municipal. Precisava ver-me para poder tocar, ele disse, numa leve chantagem, que me comoveu. Fui ao seu encontro. Vânia não poderia saber. Tive que driblar a sua vigilância. Não queria atormentá-la mais.
Diante de Gino, numa cafeteria do centro da cidade, freqüentada pelos músicos de orquestra, fiquei corada de emoção, como uma adolescente, e ele, enorme, abraçou-me de um modo que me abarcou toda. Senti o seu cheiro doce, de homem, e vi que nada podia comparar-se àquilo. Me senti, por um segundo, pequenina e com vontade de chorar. Aquele homem me tivera, me conhecia. E eu...o conhecia como a um menino que tivesse saído de dentro de mim. Explodi, afinal, em lágrimas. “Meu homem ( eu pensava ) leva-me contigo, serei a tua escrava. Toma-me em teus braços e carrega-me para o teu teatro, para o teu violino e depois para o teu leito. Enche-me do teu branco amor. Planta-me um filho no útero, vê a minha barriga crescer, abre-me inteira e retira o teu filho como um pequeno violino precioso. O pequeno violino de Mozart, que nos uniu. Faz-nos vibrar com a tua música, virtuose!”

.....................................................................................

Saindo do Café, Gino levou-me até o Municipal, e entramos por uma entrada lateral. Ninguém nos barrou a entrada. O teatro estava vazio, estranhamente, não encontramos nenhum funcionário. Era um horário morto, para o teatro, ou então, os deuses da coxia conspiravam a nosso favor. Puxando-me pela mão, conduziu-me por labirintos desconhecidos, para mim, naturalmente. Até que chegamos ao seu camarim. Entramos, e antes que eu pudesse sequer olhar o ambiente, ele trancou a porta e começou a despir-me. Havia ali, estrategicamente, um sumiê antigo, uma espécie de divã. Nua, ele deitou-me num movimento contínuo levantando bem alto as minhas pernas, e olhando entre elas com aquele olhar que eu conhecia, de menino levado, colocou cuidadosamente a ponta do seu grande membro na “portinha” e empurrou lentamente. Eu tinha os meus tornozelos sobre os seus ombros, em posição ginecológica, e senti-me docemente invadida, como deve ser no paraíso. Ele começou a movimentar-se lentamente, a princípio, reunindo seu suco, me pareceu.
–Vem, Gino—eu exclamei–Dá-me o meu bebê !
Ele explodiu seu sêmen fecundo dentro de mim, inundando-me.
Eu estava grávida do meu amor, tive imediata certeza.

....................................................................................


Vânia estava inquieta. Dizia:
–Alma, você está diferente, o que é, Alma? Eu sinto, você está diferente. Você não quer dar-se a mim. Não posso tocar o seu ventre. O que se passa? Você não me ama mais? O que há, Alma? Já sei, você encontrou Gino. Ah! É isso, vocês se encontraram! O que aconteceu entre vocês?
–Vânia,–eu disse–eu e Gino temos algo muito forte, que não acaba assim, simplesmente, como você deve saber. Nunca escondi isso de você. De ninguém. Isso só diz respeito a nós dois. Não temos de compartilhar isso com ninguém, você já sabe. Você sempre soube.–eu dizia isso acariciando, instintivamente a minha barriga. Notando isso Vânia arregalou os olhos:
–Alma, você está grávida! É isso. Ele a engravidou afinal.–suas lágrimas saltavam, mas ela abraçou meu ventre ternamente. Surpreendi-me. A mulher nela falara mais alto. Ela compreendia, então, afinal. Abracei-lhe a cabeça contra o meu ventre, dizendo-lhe:
–Assim, Vânia, assim, minha amiga, meu amorzinho. Você amará também essa criança, e me ajudará a criá-la. Assim, não precisaremos separar-nos, não é mesmo?
–Sim, Alma, meu amor, meu amor. Eu já amo essa criança. Ela vem de você. Ela é você. Só posso amá-la, não vê? (e beijava minha barriga.)
Aquela noite dormimos de mãos dadas, ternamente. Tudo ocupava o seu devido lugar, eu pensava. O caos se afastava. Fazia-se a ordem natural, eu pensava assim...

.....................................................................................


Daí a nove meses exatos, eu daria a luz ao meu bebê. Vânia segurava-me a mão ao lado do leito de parturiente, enquanto eu sofria as dores, e fazia força junto comigo. Gritei muito, me disseram depois. Eu não me lembro de ter soltado um único gemido. Não me lembro das dores. Tenho o meu pequeno violino de Mozart sobre o meu ventre, a boquinha colada em meu seio. Sinto-me plena, inundada de amor que escorre por dentro do meu seio para essa pequena flor rosada. Minha vida parece gloriosa. A vida é glória, somos todos estrelas. A vida e a Arte são uma coisa só. Glória eterna do Pai. E da Mãe Natureza, que Ele criou e que por sua vez nos gera.
Quem ousará levantar a sua voz, contra essa perfeição?


FIM


8/11/2002

________________________________________________________

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

MARCELLO (Novela Perséfone - primeira parte da "Trilogia Mítica" de Alma Welt)


Pithie- escultura em bronze de 1870, de Marcello (Adèle D'Affry, duquesa Castiglione-Colonna). Grand Foyer do Opèra de Paris.


Marcello

Primeira parte da Trilogia Mítica- (I)Perséfone), de Alma Welt

Acabo de regressar de Paris, onde expus minhas telas com relativo sucesso. Reentro em meu atelier, na região dos Jardins, com aquela saudade e a satisfação do retorno e do dever cumprido para comigo mesma... Entretanto, estou ainda sob o efeito de um acontecimento insólito que ocorreu nos últimos dias da minha estadia na capital francesa.

Estava eu numa soirée do Opéra, para assistir um grande evento, a ópera Carmen, numa montagem deslumbrante, a que tinha sido convidada por um casal de amigos brasileiros, cultores desse tipo de espetáculo, desde o nosso maravilhoso Municipal, por sinal, inspirado naquele teatro.

No Grand Foyer, entre toda aquela gente belíssima (o “tout Paris”, como se dizia em outros tempos), nos seus vestidos de “haut couture” e ternos impecáveis, de repente me vejo diante de uma espantosa escultura em bronze, instalada num nicho, representando uma mulher sentada, em movimento frenético, os seios nus, com uma perna encolhida e a outra pendente do pedestal, elegante apesar da fúria dos seus movimentos, com um braço semi estendido, a mão em movimento de sofisticada garra. A cabeça voltada, serpentes vivas nos cabelos como a Medusa, rosto irado, com a boca aberta num grito que quase se podia ouvir naquele Foyer. O vestido era leve sobre a pele, maravilhosamente drapejado no bronze. Um “chef–d’oeuvre” , sem dúvida nenhuma. Enigmática, clássica, bela, dramática. Senti uma pancada na alma, com o assomo de uma memória antiga, esquecida. Aproximei-me fascinada, para observar os detalhes e... procurar a assinatura . Encontrei-a na base da escultura, no pedestal, que era uma trípode( devia tratar-se portanto de uma Pítia ou pitonisa). Mas eu já sabia muito mais que isso, antes de encontrar a assinatura: MARCELLO. Eu sentia que conhecia cada detalhe daquela escultura, de uma maneira tão profunda, como se ela na verdade emanasse de mim mesma, de um passado remoto, desconhecido em mim. Que mistério era esse? Como podia ser isso?

Após o espetáculo, que assisti entre a perturbação e o devaneio, pedi ao casal amigo que me deixasse no hotel, não queria esticar a noitada. Eles ficaram decepcionados, queriam comentar a montagem, as vozes, a encenação original, que normalmente me deslumbraria, sendo uma das minhas óperas favoritas. Mas desculpei-me, pretextando um enorme cansaço, fruto das emoções acumuladas do meu vernissage e da experiência daquela noite. Não insistiram mais e deixaram-me no hotel, despedindo-se carinhosamente. Flora, minha amiga, tocou meu rosto na despedida, com um ar intrigado. Fez um gesto circular com o dedo ao retornar ao carro, como sinal para que eu telefonasse no dia seguinte.

Cheguei exausta, realmente, e lancei-me na cama após fazer desabar meu longo, calcado aos pés, na ante-sala da minha suíte. Adormeci logo, profundamente, para encontrar-me com o sonho que eu pressentia e que queria apresentar-se:

Vi-me num salão congestionado de pessoas elegantes, mulheres riquissimamente vestidas em amplos vestidos armados, e jóias faiscantes. Homens de casaca, abandonando suas cartolas e bengalas nas mãos de pagens, à entrada. Estes, vestidos com casacas vermelhas demodées e cabeleiras brancas de um século anterior (somente os pagens). Os homens, com colarinhos altos e casacas escuras, tinham uma sofisticada elegância, um dandysmo ostensivo. Alguns fumavam charutos em salões contíguos, para esse fim, afastados das senhoras. Estávamos em meados do século XIX, eu identifiquei. Eu acompanhava com o olhar, em meu sonho, uma mulher deslumbrante, saudada, cumprimentada por todos, cortejada, bajulada mesmo. Chamavam-na duquesa. De repente ouvi o seu nome na boca de um interlocutor: ADÈLE. Ela trocava palavras com homens e mulheres, com desenvoltura e “aplomb”. Percebia-se o seu grande cosmopolitismo. Demorou-se conversando sobre escultura com um homem maduro, sempre com economia de palavras, em frases curtas, evidenciando um certo mundanismo, como convém num ambiente social: sem discorrer. Tudo isso se apresentava e ficava claro, em meu sonho, como se eu descortinasse um fragmento de sua vida, que insinuava todas essas informações básicas, mas insatisfatórias. Tanto que acordei com uma sensação de vazio, de insuficiência, ansiando por encontrar-me novamente com aquela personagem. Que queria dizer isso tudo? Por quê ela se apresentara a mim através daquele sonho, após o impacto da minha descoberta de uma obra escultórica, no foyer do Opéra?

Chamo pelo interfone o petit-déjeuner no quarto, e quando este chega, para minha surpresa, vem acompanhado de uma corbeille de flores, lindíssima, com um cartão:

“Pour la demoiselle du Grand Foyer, l’admiratrice du Marcello, plus belle que la Pythie, et beaucoup plus suave,
le tribut de m’admiration, bien comme l’invitation pour un café.Je vous attendre, ici bas, dans le foyer, le temps que vous rendre nécessaire."

Fiquei excitadíssima com a surpresa e a idéia da pequena aventura psicológica de um encontro inesperado e tão galante. Somente estranhei um pouco a expressão “ici bas” que quer dizer “neste mundo”, e não simplesmente “aqui em baixo”. Tomei uma ducha rápida, naquele cabo que parece um telefone, que sai das banheiras deste país. Porque será que eles não fazem uma coisa mais prática, como nós? Sim, porque eu percebi que os franceses, agora estão se banhando com mais freqüência, talvez devido ao preço exorbitante dos perfumes. Ou a um aumento na temperatura média do planeta, devido ao efeito estufa. Será? Por falar nisso, como será o cheiro desse cavalheiro, que me espera lá em baixo? (Sorri, e fiz uma careta ao espelho, imaginando aquele ranço conhecido, de muitos dos franceses, misturado à sobreposição de perfumes acumulados).

Vesti-me rapidamente, passando o nosso bom desodorante brasileiro, que trago sempre comigo. Passo um escova rápida nos cabelos e saindo pego o elevador para o térreo. Ao abrir a porta, sinto-me logo observada e vejo um homem maduro, de têmporas brancas, aproximar-se. Ainda a uma certa distância, tive um novo impacto. Eu já vira aquele homem! Aquele semblante, aquelas têmporas, eu as reconhecia...do meu sonho! Adèle, a duquesa, falara com este homem sobre escultura, e ele, no sonho discorrera brevemente, com grande conhecimento. Era um escultor!.. no sonho. Mas, por quê? Por quê isso? O que está acontecendo?

Ele parou diante de mim, olhando-me fixamente nos olhos. Sua estatura mediana, sua testa alta, seu nariz muito grande, mas perfeito, os lábios finos e a ponta do queixo proeminente, faziam o retrato típico do intelectual francês. Cumprimentou-me beijando-me a mão que lhe estendi. Ele disse:

– Mademoiselle Alma, meu nome é Jean-Baptiste e considero um privilégio conhecê-la. Estive agora há pouco na galeria para ver as suas obras. Tiveram que abri-la especialmente para mim: fiz-me passar por um colecionador. Afinal, era um pouco cedo...Mas minha visita só confirmou a minha intuição ao vê-la ontem, no Opéra. A senhorita é uma grande artista, e uma escultora nata, que ainda não esculpiu. Seu senso de volumes e de espaço é notável, embora seu colorismo seja também bastante convincente...e exuberante, como se espera de alguém que vem dos trópicos. Mas surpreendeu-me, vindo de uma jovem loura como uma walquíria e com um sobrenome como o seu : Welt, não é mesmo? Mundo...Será o seu palco, sem dúvida, ou seu “salon”, melhor dizendo...Mas, venha comigo, vou lhe mostrar um café aqui perto, onde Cocteau costumava freqüentar com Marais, e onde muito antes, Baudelaire escrevia seus poemas numa mesa que ostenta ainda a sua assinatura, desconfio que falsa. O dono é um homem muito simpático, que adora artistas, como seus antepassados. Diz que seu avô foi dono do Album Zutique, muitos anos, antes de o leiloarem. Ali estava as “Cores das Vogais”, de Rimbaud, e tantas outras coisas. Bem, Paris é um repositório de estórias sem fim, menos apreciadas hoje, por essa geração americanisada . Você sabe, meu pai, deputado, pouco antes de morrer fez um projeto de lei que punha barreiras à invasão da cultura americana, na tentativa, a meu ver desesperada, de salvar a nossa. Foi tachado de fascista. Outro dia cheguei à casa de amigos casados e fui cercado por crianças de revólveres na mão, brincando de Matrix. Seria melhor, é claro, que estivessem vestidos de Astérix e Obélix, não é mesmo? Mas... estou tagarelando... não é meu feitio: a senhorita, por alguma razão, me deixa perturbado. Na verdade, já sei porquê...

Sorri, intrigada, e diante da cadeira que ele afastou, numa mesinha de calçada, olhei para dentro do tal café, desejando conhecê-lo por dentro. Jean-Baptiste, então, pegando-me no braço, introduziu-me no recinto, um tanto escuro, mas cheio de quadros, e apresentou-me ao gerente dizendo:

– Olá, Martin, esta é Alma, a artista, brasileira. Uma pintora de mão cheia. Soberba. Mas, seu patrão não está, não é mesmo? Queria apresentá-la.

– Bonne journée, mademoiselle – disse Martin—Je suis enchanté. Esta é uma casa de artistas, há gerações, sinta-se na sua. Querem ser servidos aqui dentro ou lá fora?

– Lá fora, Martin, está um pouco escuro aqui dentro para esta brasileira solar , não é mesmo?

Enquanto Martin olhava intrigado os meus cabelos louros, Jean-Baptiste levou-me de volta á mesinha da calçada comentando: —- Lá dentro há um Modigliani autêntico, trocado pelo pintor por bebida, com o avô do proprietário. Já ofereceram fortunas e o Laurent recusa-se a vender. Até o museu do Beaubourg quis comprá-lo. Mas o louco do Laurent acha que o quadro produz um certo sortilégio na casa e o mantém no escuro, quase invisível. Como disse, esta cidade é cheia de estórias e idiossincrasias. Na verdade estou farto e sonho todos os dias com praias tropicais que não tenham sido pintadas sequer por Gauguin. É irônico, para mim, conhecer uma brasileira branca e loura como uma alemã, como você. Os trópicos fogem de mim, e acho que não sobreviverei a mais um inverno parisiense, se não conseguir escapar a tempo.

Observei Jean-Baptiste, sua palidez típica, enquanto ele acendia um cigarro. Pensei comigo: “é isso que vai acabar com você. Cigarro e céu escuro, de chumbo, são uma fórmula mortal...” Disse-lhe:

– Jean, venha ao Brasil, mostrar-lhe-ei nossas praias, se você parar de fumar. Essa é a condição.

Jean Baptiste olhou-me surpreso, desconcertado. Apagou o cigarro no cinzeiro, pedindo desculpas, meio atrapalhado.

Dei uma risada e disse: —-Jean-Baptiste, bastou uns minutos em sua companhia, para eu tomar essa liberdade de criticá-lo. Desculpe-me. Mas é para seu bem. Você me parece um tanto pálido e ansioso por sol e saúde. Fale-me de você.

Jean-Baptiste olhou em volta, depois nos meus olhos, abaixou os seus e disse:

– Alma, sinto que já a conheço, há muito tempo. Bastou vê-la no Grand Foyer e isso não me sai da cabeça. A sensação de conhecê-la... profundamente. Porque? Nunca conheci uma brasileira antes, embora sonhe com as praias do Brasil, o Rio de Janeiro, você sabe...Uma vez vi um documentário de Carnaval e pensava que todas as brasileiras eram negras. Atraí-me profundamente pelo Samba, aquele ritmo, aqueles passos. Também pela pele escura das mulheres e homens, que me lembram os bronzes da casa de meus pais, mas somente na cor, certamente. Aquilo tudo são deuses e deusas gregos, não sei porquê fazem uma pátina tão escura. Enfim, é tudo convenção... e tradição. Você sabia que os gregos pintavam suas estátuas de cores vivas? A cor não resistiu ao tempo. Bem, é uma teoria... não é seguro. Mas, estou divagando. O fato é que estou um pouco confuso com a emoção que sua pessoa me causa, desde ontem. Tive um sonho esta noite... não sei se devo contar...

– Conte, Jean, eu lhe peço. Também tive um sonho estranho em que... mas depois conto-lhe o meu. Fale, fale.

– Bem, após a minha visão de você, no Foyer, quase me aproximei. Você estava tão linda, admirando aquela escultura com uma atenção que não se vê por aí... Percebi que você estava profundamente emocionada, o que é raro de se ver nesta cidade de blasés locais e turistas levianos. Você parecia querer tocar e acariciar aquela estátua e seus dedos pairavam, percorrendo algumas formas, sem tocá-las. Na verdade, fez bem em não fazê-lo pois havia um guarda do Opéra que a vigiava, pronto para dar o bote. Ai de você, se o tivesse feito: nós franceses somos muito agressivos com certas coisas, e intolerantes. É disso que estou farto...entre outras coisas. Bem, como dizia, fiquei observando-a e me senti comovido também, de uma maneira extraordinária, eu, que já nem reparava mais nessas estátuas... Mas era o confronto... você sabe, você e a estátua, a sua relação com ela, que me comoveu. Se eu tivesse me aproximado naquele momento( e eu tinha um bom pretexto), o encanto teria se partido. Eu quebraria a relação, interromperia o ato mágico. Fiz um esforço para não abordá-la. Preferi segui-la disfarçadamente, de automóvel, até a porta do seu hotel. Esperei uns minutos e com um pretexto, fui ao balcão da recepção e consegui, com um pequeno suborno, a informação sobre a moça loura que estava ali hospedada. Uma brasileira! E artista! Chamada Alma! Soube que expunha na galeria Miroir d’Art, de propriedade de uma outra brasileira., chamada Ceres. Fui para casa, ansioso pelo dia seguinte para visitar sua Exposição. Mas tinha medo de me decepcionar. Adormeci, afinal, e sonhei o seguinte:

Eu estava no recinto de um enorme atelier, envidraçado parcialmente por cima, diante de um molde em gesso de uma escultura complicada. Um conjunto de figuras que representava um velho, sentado, com crianças de sexo masculino agarradas ás suas pernas, em agonia, enquanto ele, o velho, parecia roer os próprios dedos. O gesso era todo desmanchado, rebocado, espatulado como um esboço, expressionista avant-la-lettre, de uma dramaticidade extrema. Reconheci o tema de Ugolino, da Divina Comédia de Dante (o conde condenado à morte pela fome, juntamente com seus filhos). De repente, aproximou-se de mim uma moça belíssima, com cabelos pretos e pele muito branca, elegantíssima em seu amplo vestido, e começou a cobrir-me de elogios pela minha obra (Dei-me conta, ao acordar, que eu seria o escultor, o autor daquilo). Ela pousou a branca mão no meu braço respingado de gesso e eu a tomei nos braços. A emoção fortíssima que me tomou, fez-me acordar, frustrado. Daria tudo para continuar aquele sonho. Tentei voltar a dormir para continuar daquele ponto, mas foi em vão: eu acabava conduzindo por vontade cenas que não pareciam verdadeiras, não era mais real como o sonho. Você sabe, Alma, sou psicanalista, esqueci-me de contar isso. Nós, desde Freud, seguimos seu axioma: O SONHADO SÓ SE REFERE AO SONHADOR . Na verdade, sou seguidor de Jung, que mais que todos concorda com isso com o mestre com o qual rompeu, embora ele abra exceções para grandes sonhos coletivos, arquetípicos, em geral tribais. Visto isso, estou inclinado a crer que a mulher do sonho era a minha Anima, enquanto o escultor, certamente era eu em minha totalidade relacionando-me com minha Anima diante da minha vida, isto é, a criação artística que tinha como tema , o pai, impotente diante da carência básica de seus filhos. Que filhos? Eu mesmo e meu irmão, em nossa infância faminta de afeto, diante de um pai responsável , mas severo e avarento. Entretanto, acordei associando a imagem feminina do sonho à moça, que eu vira no Opéra, e que embora loura, tinha nítida semelhança de traços, e sobretudo de atitude admirativa diante da obra de arte. Ou seja, você.

Quando soube seu nome, tive mais um impacto. Você entende, Alma?

Fiquei tremendamente emocionada. A imagem de Jean-Baptiste em meu sonho, o escultor com quem a moça conversava no salão, em alegre camaradagem, pareceu-me mais nítida. Era ele, sem dúvida. Tratava-se de saber o nome completo do escultor, já que o da a moça do seu sonho deveria ser o mesmo que eu ouvira no meu, isto é: ADÈLE.

– Jean-Baptiste, tudo isso é notável. Há grandes coincidências em nossos sonhos. A mulher que eu seguia por imensos salões, conversando sobre Arte, era também morena, de pele clara, e conversava sobre escultura com um homem idêntico a você. Pareciam ser muito amigos. Havia um certo carinho em suas atitudes. Quando o vi no saguão do hotel, tive um choque de reconhecimento. Mas, estou pressentindo agora o significado de tudo isso. Creio que será fácil descobrirmos o sentido dos nossos sonhos...e do nosso encontro. Vamos procurar uma biblioteca. A Bibliothèque Nationale, de preferência, que deve ser mais acessível que os arquivos do Louvre, imagino. Adoro pesquisas. Vamos começar logo?

–Também creio que será fácil, Alma. Nem precisamos ir á Bibliothèque Nationale. Na casa de meu pai, na sua biblioteca, há o Bénézit. Deixe-me dar um telefonema. Sou um pouco cerimonioso com a viúva, minha madrasta. Aguarde-me, volto logo.

Estranhei um pouco ele não ter, aparentemente, um celular consigo, para ligar dali mesmo, da nossa mesa, mas logo compreendi que ele queria privacidade nessa ligação, pois não se dirigiu sequer ao interior do Café e sim a uma cabine telefônica ali perto. Voltou logo, satisfeito, dizendo:

– Alma, falei com Corinne, minha madrasta, que simpatiza comigo, na verdade bem mais do que o velho, outrora. Foi muito receptiva ao telefone. Pode receber-nos com prazer, ela disse, agora mesmo.

Jean-Baptiste pagou a conta adicionando o “pour-boire”, e nos dirigimos para uma ruela próxima onde estava estacionado seu automóvel. Dirigimo-nos para um bairro chic, na Rive Droite, muito arborizado e paramos diante de uma grande mansão, um verdadeiro chateau, em estilo neo-clássico. O grande portão de ferro se abriu, misteriosamente, pois Jean não precisou anunciar-se. Subimos a alameda de cascalho e paramos diante da escadaria, onde nos esperava uma bela senhora de lindos cabelos brancos tratados. Notei-lhe o olhar intenso e extremamente inteligente. Examinou-me rapidamente, mas com simpatia. Após os cumprimentos e a minha apresentação, fomos introduzidos. Jean-Baptiste conhecia bem a mansão, naturalmente. Afinal, era a casa de sua infância e juventude. Observei rapidamente que a casa era cheia de esculturas de bronze por todo lado. Havia também algumas de mármore branco de Carrara. Sempre clássicas, belíssimas. Grupos, figuras solitárias, bustos, tudo. Figuras mitológicas e históricas, nus e algumas até, de animais. Algo que merecia uma visita especial. No entanto tive de acompanhar Jean-Baptiste até a biblioteca-escritório. Por alguma razão meu coração doía, eu não sabia porquê.

Jean-Baptiste foi direto a uma estante onde se encontrava o Bénézit, no mesmo lugar desde a sua infância. Reparei que eram oito volumes, mas logo a minha atenção foi atraída para uma estatueta de bronze, que estava sobre a mesa de trabalho ou leitura. Tratava-se de um retrato de Liszt, belíssimo. Estremeci ao reconhecer no pedestal a assinatura MARCELLO. Dei um pequeno grito de surpresa e prazer, que atraiu a atenção de Jean. Ele voltou-se, já com um volume na mão . Eu apontei–lhe a estatueta, exclamando:

– Jean, Jean, é um MARCELLO!

Jean sorriu, respondendo:

– Sim, Alma, nós costumávamos, meu irmão e eu, usar esta escultura para quebrar nozes sobre a mesa na época do Natal. Pobre Liszt. Devia tremer no túmulo. Eu sabia que era um Marcello. Mas nunca me ocorreu, naquela época, conferir no Bénézit, quem era esse escultor. Era um santo de casa, não fazia milagres. Apenas um quebra-nozes. Vejamos agora: Marcello, voir Castiglione-Colonna ( duchesse Adèle de).

Jean depositou o volume de letra M e retirou o de letra C. Lá estava:

“ Castiglione-Colonna ( duchesse Adèle de) née d’Affry, dite Marcello, sculpteur et peintre, née a Fribourg ( Suisse) le 6 juillet 1836, morte à Castellamare le 16 Juillet1879 ( Ec. Ital.)

O seu verbete, não muito longo, falava naquele busto de Liszt (o que me comoveu) e na sua Pythia ( adquirido por Garnier no Salon de 1870, para o Grand Foyer du Opéra de Paris). Falava também na sua criação de um museu próprio, o Museu Marcello, incorporado depois pelo Museu de Fribourg, na Suissa. Imediatamente projetei visitar com Jean ou sozinha, aquele museu.

– Jean, Jean -disse eu- Marcello é uma mulher, Adèle D’Affry, duquesa Castiglione-Colonna. É como se eu já soubesse disso, não sei porquê. É ela, Jean, que eu vi no meu sonho! Andando por aqueles salões, linda, rindo e conversando com os homens, mais do que com as mulheres...conversando com você.. digo, com o escultor que se parecia com você. Eles pareciam tão íntimos, havia tanta camaradagem, um certo carinho até... não sei. Devo estar imaginando... Não sei mais onde acaba meu sonho e começa minha imaginação. Jean, Jean , o que quer dizer tudo isso?

Jean-Baptiste também estava emocionado e com um certo brilho molhado nos olhos, respondeu-me:

– Alma, lembra-se da frase de Jung: “ O sonhado se refere ao sonhador” ? Adéle era você. Se não você não a teria visto antes de saber de sua existência ... Foi uma reminiscência, Alma, algo de que a sua alma se recordou. Um fragmento, um episódio do cotidiano de Adèle, em sua glamurosa vida. Isto está claro, agora. Quanto a mim, devo ser, no seu sonho, o amigo de Adèle, o mesmo escultor que vi em meu sonho, no meu próprio atelier, e em cujos braços Adèle caiu. (Jean ofegava cada vez mais, comovido) -Alma, Alma,eu já a amava como Adèle, é isso!..perdoe-me .( Jean se retraiu subitamente envergonhado com o seu derramamento ).

Enterneci-me, e pousei minha mão no seu braço. Ele permaneceu extático, com o olhar brilhante, fitando-me ardentemente.

– Jean, devemos investigar mais um pouco-( eu também estava ofegante )- Isso tudo é muito estranho. Nunca antes eu tinha ouvido falar nessa escultora, no Brasil. Eu sei, por isso mesmo... Fui atraída por uma escultora clássica. Eu, uma pintora moderna e brasileira, ainda por cima. Não faz sentido...Por outro lado, ela me atrai poderosamente. Eu quase me identifico...com ela. Porquê? Porquê? Aquela Pythia é tão violenta, o contrário de mim como mulher. Mas as formas, a obra em si, me atrai como se...eu pudesse tê-la feito? Não, não, isso é loucura! Não quero pensar nisso. Tenho mêdo...

– Alma, você fingiu não ter me ouvido. Eu já disse e agora repito: eu já a amava como Adèle. Isso está bem claro para mim. Preciso saber somente que escultor era esse, que eu fui... e que você amou também. Não, não fuja, Alma. Não premeditei nada disso, também estou perplexo. Mas disso não recuo mais: eu a amo, Alma, agora e sempre, desde aquela época. E não me permitirei perdê-la novamente, por um século e meio.

Eu estava quase desfalecendo. Queria fugir dali, ou atirar-me em seus braços, mas algo me impedia. O romanesco da situação era tão intenso, que me revoltava e exigia minha ponderação. Disse-lhe:

– Jean, algo me impede de envolver-me assim , abruptamente como você quer. Preciso saber mais. Quem era Adèle, afinal? Quem sou eu? Já não sei mais. Porquê Liszt sempre me atraiu tanto? O que foi ele para Adèle? Sinto que preciso saber tudo. Agora leve-me ao hotel, eu lhe peço. Não posso mais com essas emoções, sinto que se permanecer, vou acabar desfalecendo. Vamos, leve-me agora.

Nesse momento, voltamo-nos para a porta e vimos que Corinne, a madrasta, nos olhava intensamente. Ela falou:

–Perdoem-me ouvir o final de sua conversa. Estou também impressionada . Permitam-me que os ajude nessa pesquisa. Há outros Marcello pela casa. Como aquela Bacante Exausta, lá no salão. Era um dos escultores preferidos do seu pai, Jean, você deve saber disso. No fim da vida ele teve um breve namoro com a escultura de Camille Claudel, mas que não substituiu sua preferência. Afinal, seu pai apreciava o clássico, sobretudo. Mas ele nunca se referia a Adèle, era sempre Marcello. No entanto ele sabia tudo sobre seus escultores. Seu pai era um homem muito culto, você sabe. Um erudito, mesmo. Mas... deixem o resto da pesquisa comigo ou deixem-me participar dela. Preciso de distração. Desde a morte do meu marido convivo com estes fantasmas. Agora vejo que eles podem ter um novo interesse. Vou xerocar o verbete imediatamente, para vocês e para mim, está bem? Agora vou levá-los até o carro. Alma não está se sentindo bem. Quer alguma coisa, querida? Um chá. Ou uma taça de vinho?

Fiquei imensamente grata a Corinne. Ela me abraçou carinhosamente, quase como uma mãe. Aninhei-me por uns segundos, em seu peito. A simpatia dessa mulher me cativara. E ela estava ali por alguma boa razão, eu intuía. Aceitei um copo de vinho que tomei um pouco avidamente e dirigi-me para a porta. Antes quis ver a tal Bacante. Aquilo acabou de me exaurir. Despedi-me de Corinne. Pensei naquele momento que não a veria mais. Entrei no carro e partimos. Durante o trajeto preferi o silencio, que Jean-Baptiste respeitou. Deixou-me no hotel e partiu um pouco frustrado. Certamente queria que eu lhe tivesse caído nos braços como no seu sonho.

No quarto do hotel, atirei-me sobre o leito e adormeci um sono de pedra, sem sonhos.

De manhã bem cedo o telefone tocou na minha cabeceira. Era Jean-Baptiste que me saudava com entusiasmo, logo comunicando:

– Alma, já sei o nome do escultor. Foi muito fácil identificá-lo pela escultura do Ugolino. Corinne encontrou-a num livro, ela fez um bom trabalho de pesquisa: seu nome (pasme) era Jean-Baptiste Carpeaux, um grande nome da escultura francesa do século XIX. Adèle deve tê-la admirado enormemente, e a ele pessoalmente, também. Sei que eles se amaram... embora ele fosse bem mais velho que ela. Ela morreu relativamente jovem, aos 43 anos, de tuberculose, quatro anos depois dele. Era tida como uma das mais belas e fascinantes mulheres do século, e de longe, a maior escultora. Jovem viúva, talentosa , bela, encantadora, titulada e rica. Ela tinha tudo. Uma diva. Uma musa. Ela se considerava a reencarnação de Bianca Capello, uma femme-fatale da Renascença. Ela admirava ou se identificava com a Górgona e com Ananke, a personificação do Destino. Alma, necessito vê-la, logo, você está me ouvindo? Alô, alô, Alma, deixe-me vê-la ou enlouquecerei.

Eu ouvia em silêncio e respondi: —- Jean, está bem , espere-me naquele Café. Naquela mesma mesa, está bem? Mas somente dentro de uma hora . Como? Está bem, 40 minutos. Tomaremos o café da manhã ali, mais uma vez. A última? Não, não disse isso, calma, Jean. Aguarde-me , sim?

Em quarenta minutos cravados estava eu naquela mesa, em frente a Jean, que pusera um uma flor num copo, comprada de um garoto na rua . Isso me fez lembrar o Brasil. Ai, que saudade do meu atelier nos Jardins, na rua Oscar Freire...Jean devorava-me com os olhos, e tentou segurar-me as mãos sobre a mesa. Recolhi-as disfarçadamente. Na verdade estava envolvida com ele, não por ele. Não me sentia apaixonada...Havia um espectro entre nós, eu sentia. Mas não sabia o nome desse espectro. Era isso certamente o que mais me perturbava. Jean começava a delirar, já não conseguia mais se conter e declarou-se loucamente apaixonado por mim, antes mesmo do café da manhã ser servido, tirando-me totalmente o apetite. Como podia eu sorver o café com leite e tudo mais, diante daquele olhar febril? Perdoem-me, estou sendo irônica com o pobre Jean. Mas eu sentia que precisava me defender. Não posso me entregar assim ao primeiro escultor do século XIX que me declare a sua paixão( aqui vou eu, novamente...)

– Adèle, Alma, case-se comigo. Eu irei ao Brasil com você. Comprarei um grande atelier para você no campo, na praia, onde você quiser. Deixe-me fazê-la feliz. Eu me dedicarei a você e à sua arte, para sempre!

– Jean – disse eu — você está sendo precipitado. Você mal me conhece, não sou Adèle, sou Alma, e sou uma provinciana, uma brasileira. Não se deixe iludir por esse sonho. Depois, quem lhe disse que eu não sou feliz? Sou, e muito! Essa é uma qualidade de que não abro mão. Teria muita vergonha de ser infeliz. A infelicidade, estou convencida, é falta de virtude. É a presença dominante de defeitos de caráter. As coisa boas não produzem dor e... (calei-me, eu estava divagando, começava a exagerar, eu estava me defendendo, racionalizando, pontificando.)- Bem, Jean, não é nada disso. Deixe-me pensar. Preciso respirar, tudo isso é tão espantoso e precipitado! Preciso de mais tempo. Vamos continuar a nossa pesquisa, sim? Preciso entender porquê me atraí pela Pythia, porquê sonhei com Adèle, antes de saber quem era Marcello, porquê você sonhou com ela também, e porquê, sobretudo, a estatueta de Liszt agora não me sai da cabeça.

– Alma, -disse Jean- vou pedir aquela estatueta à Corinne. Sei que ela não vai me negar. Mas não sei se a darei a você ou vou direto jogá-la no Sena. Tenho ódio agora dessa estatueta. Parece que ela me afasta de si. Bem que ela sempre esmagava o pequeno cérebro das nozes... Ela continua, agora, esmagando o meu. Perdoe-me, estou sendo ridículo. Preciso conter-me.

Olhei-o nos olhos. Ele estava quase delirante. Aquilo me incomodava. Pedi licença para ir ao toilette. Martin saudou-me com a cabeça e apontou-me o reservado. Aproveitei para olhar o Modigliani de perto e admirei-lhe o maravilhoso nu reclinado. Agradeci a Deus por ser mulher e também bela como essa. Esse pensamento me equilibrou novamente e me deu forças. Pude pensar em Adèle enquanto fazia xixi, voluptuosamente. Ela estava muito próxima, eu a sentia cada vez mais. Senti-me apaixonada por uma Adèle apaixonada por... Liszt! Essa é que era a verdade. A beleza do rosto de Liszt! A perfeita mistura de virilidade e doçura, do masculino e feminino, nunca antes tão bem dosados num rosto masculino. Perto dele, Napoleão e Julio César tinham rostos desequilibrados, excessivamente aquilinos ou ligeiramente femininos, não sei ao certo. Liszt deveria estar próximo também, já que me sentia apaixonada novamente por ele. Novamente, eu disse? Que sei eu? Preciso saber mais... Ou já sei tudo? Arre! Estou exausta de tanta ambigüidade, tantos mistérios em minha alma.

Enxuguei-me com prazer e voltei á mesa sem lavar as mãos. Não sei porquê fiz isso. Sou uma fêmea, queria eu demarcar meu próprio corpo como território? Que idéias absurdas percorriam-me a cabeça! Jean-Baptiste beijaria minhas mãos...

Quando retornei, não encontrei mais Jean na mesa. Havia um bilhete sob a xícara de café:

“Alma, perdoe-me, não estou suportando. Preciso retirar-me da sua presença, pois estou sofrendo demais. Sua rejeição está me matando, e isso não é uma chantagem. Sinto-me morrer à míngua , como Ugolino. Aguardarei à distancia o tempo de reflexão que você está me exigindo. Perto, sou capaz de fazer uma tolice, ou de devorar minhas próprias mãos. Ligue-me quando tiver chegado a uma conclusão definitiva. Só não me ligue para dizer “não”. Prefiro esperar o resto dos meus dias .”

28/05/2006

________________________________________


O Retorno de Adèle

Segunda parte da Trilogia Perséfone, de Alma Welt

Ceres liga-me, de Paris e pede-me o meu retorno para tratarmos de uma espécie de turnê da minha Exposição, por outras cidades da Europa, até mesmo algumas capitais. Dou pulos de excitação e alegria, com a cabeça a mil, fazendo planos. Penso que será a oportunidade de dar uma esticada ao Museu de Fribourg, na Suissa, para ver o acervo do antigo Museu Marcello.

Na verdade, não deixei mais de sentí-la dentro de mim, a ela, Adèle D’Affry, a duquesa Castiglione-Colonna. Ela está presente em estranhas inquietações e devaneios, e também numa espécie de sensualidade malévola, que tenho agora de reprimir, em relação aos homens e mulheres que se envolvem em minha vida. Por quê Adèle tem isso? Uma tendência dispersiva no amor, uma indiferença destrutiva, embora involuntária, aparentemente ingênua. Não quero ser assim... Respeito demais o ser humano, e isso, nela, me horroriza. Será a presença daquela Bianca Capello, por sua vez,. dentro dela? Uma “femme fatale da Renascença”... lembrei-me das palavras do pobre Jean-Baptiste. Como estará ele? Minha indiferença, voltando ao Brasil, sem mais procurá-lo, espanta a mim mesma, agora , ao pensar nisso.

Começo a arrumar as malas e a tratar da passagem e do novo visto no passaporte. No consulado francês, fui tratada com deferência especial ao verem o catálogo da minha exposição. Outro nível, estes franceses, esta é que é a verdade. Também, estou encantada com os prognósticos, e essa alegria e otimismo ilumina meu rosto, abrindo-me todas as portas.

Afinal, no dia e hora marcados, estou no avião a caminho de Paris. Durante a viagem, uma moça, francesa, de retorno de férias no Brasil, sentada ao meu lado, puxa conversa, com uma simpatia incomum nos franceses. Diz-se encantada com os brasileiros, em sua temporada no Brasil, e pergunta-me, sempre em francês, se estou voltando para a Alemanha. Sorri, e digo-lhe que não, sou apenas descendente de alemães de Santa Catarina, por parte de pai. Ela lamentou não chegar até o extremo sul do nosso país, desta vez, prometendo a si mesma, voltar. Logo põe-se a contar uma espécie de romance que teve com um baiano, em sua estadia em Salvador, e o encantamento com a cultura afro-brasileira daquela cidade. Os franceses ficam doidos com aquilo, o verdadeiro exotismo brasileiro, que tanto procuram. Lembrei-me de Gauguin, no Tahiti, procurando a alma primitiva em si mesmo... e quase encontrando, apesar de tudo... Apesar de sua vitimização nesse processo. A propósito, contei a Annie, a belíssima cena de uma versão cinematográfica americana, da vida de Gauguin, em que , diante de sua filha Aline, na Dinamarca, retornando do Tahiti, durante uma dolorosa visita à sua família, o pintor é perguntado pela menina:

– Papai, o que é um gênio?

E o pintor responde: –“ Filha, um gênio é um homem que faz algo extremamente necessário à humanidade, algo de que ela não pode prescindir.”

E Aline, então:–“Você é um gênio, papai?”

Gauguin, após uns segundos, respondeu:–“Não sei, filha, acho que estou tentando ser...

E Aline: –“ Papai, eu posso ajudar você nisso? Posso, papai?”

Então Gauguin, com um brilho úmido nos olhos, disse:

–Pode, Aline, você pode.

–Como, papai, como?

—“Basta que você, quando tudo estiver muito ruim... quando nada parecer estar dando certo comigo, quando ninguém mais acreditar, você continue acreditando em mim. Sempre acreditando... Você estará me ajudando.”

Caí em prantos, de repente, abraçada por Annie, que com os olhos úmidos também, naquele momento decidiu ser minha amiga para sempre, eu senti.

Depois deste derramamento, em que expus precipitadamente a minha alma de artista, resolvi conter-me e prestar mais atenção a essa francesinha, que me conta uma perturbadora aventura tropical, encerrada após uma procissão marinha da Nossa Senhora dos Navegantes, ou Iemanjá, em que diante da impossibilidade de pertencer totalmente ao universo do seu amante baiano, recuou ante a visão assustadora de tantos Orixás naquela alma, e repeliu-se a si mesma dos braços daquele príncipe negro, que a engolfavam como um abismo. Voou para São Paulo, como uma transição, antes de retornar à sua antiga Gália, agora, neste avião.

Eu tinha tanto que dizer-lhe, sobre tudo isso , mas preferi deixá-la com suas próprias conclusões, talvez mais apropriadas. Tanto mais que ela me passava a impressão de guardar uma outra paixão, esta sim, grande e dolorida, anterior, e que nada tinha a ver com a sua aventura tropical, que teria sido pura tentativa de escape. Minha alma é também tão confusa, e mais ambígua ainda em suas heranças: germânica, brasileira e ainda portuguesa, por parte dos antepassados maternos... Sem falar naquela Adèle, suissa, com sua carga de paixões e de amores passados, que sinto carregar dentro de mim, como um segredo que por enquanto manterei, exceto para os meus invisíveis leitores.

Sinto que posso me confrontar com ela, em pessoa, de algum modo, e que tudo me prepara para isso, inexoravelmente. Claro, não sei prever como ou quando isso se dará, mas...

Ao pousarmos em Orly, Annie agarrou-se a mim, e afirmou não querer mais perder-me de vista e fazer questão de me acompanhar até o meu hotel em Paris e de dar-me o seu endereço. Dizia que a minha amizade era agora vital para ela.

Após a viagem de Orly até Paris, em que tornamo-nos mais íntimas, despedimo-nos com um forte e estranhamente comovido abraço, no saguão do hotel, ela prometendo procurar-me logo no dia seguinte, para levar-me a conhecer sua família, e almoçar, com eles.

Depois de um repouso no meu quarto, o mesmo em que estive da outra vez, começo a ordenar os pensamentos e a fazer planos. Organizo a pasta de novos desenhos e idéias, para mostrar para Ceres, na Galeria.

De repente, penso, sem querer, em Jean-Baptiste, e tenho a tentação de procurá-lo, embora isso seja arriscado, pois não sei se suportarei o seu assédio novamente... ou a ausência dele. Essa ambigüidade me envergonha, parece vir da alma de Adèle, dentro de mim. Que quero eu, ou ela, do pobre Jean? Atormentá-lo mais ainda? Por quê, toda a vez que estou com ele, penso em Lizst? Justamente para me afastar dele? Hei de tirar tudo isso a limpo, agora, nesta temporada em Paris. Creio mesmo, que só por isso retornei, na verdade, e que as exposições são mais um pretexto que qualquer outra coisa.

Telefono para a Galeria e falo rapidamente com a filha de Ceres, cuja voz me soou familiar. Uma jovem que não conheço, meio distante. Terá ela uma alma brasileira? Sendo o pai francês, e tendo nascido e sido criada aqui... Bem, não vem ao caso. Marco encontro a uma determinada hora na Galeria, mas penso antes passar na livraria Erebus para procurar um livro sobre Adèle, e sobre Jean- Baptiste Carpeaux, se possível.

Chego na livraria com bastante antecedência da hora do meu encontro para justamente poder procurar à vontade, e pesquisar.

Qual não é a minha surpresa quando, de repente, ouço a sineta da porta soar e vejo Jean-Baptiste entrar, um cigarro na boca, meio curvado como sempre, e dirigir-se ao livreiro dizendo:

— Olá, Bertrand, encontrou o livro que lhe encomendei? Tem que ser ilustrado, lembra-se? Meu ensaio está adiantado, mas preciso daquela ilustração, urgentemente.

— Não, Jean, ainda não encontrei-o . Eu lhe disse que o avisaria, assim que o encontrasse. Que impaciência, Jean! Vocês escritores pensam que a literatura se faz em seis dias. Enquanto isso, veja este livro que garimpei, sobre escultores, escrito, veja, por seu pai, ainda antes que você nascesse. Pena que as ilustrações são muito mal fotografadas. A técnica desse tipo de fotografia, para realçar os volumes, ainda era muito ruim naquela época. O que se poderia fazer hoje, com um acervo assim, hem? Reconheço algumas obras da sua casa. Elas ainda estão lá? Bem, você não mora mais lá, há muitos anos, mas Corinne não vendeu nada, não é mesmo? A propósito, ela esteve aqui, fazendo uma pesquisa sobre uma escultora, acho que a mesma em que você está interessado. Vocês estão juntos nisso? Que mulher a sua madrasta, hem? Lembro-me dela moça ainda, uma verdadeira beldade. Foi um caso de amor tórrido, entre eles, não é mesmo?

Eu ouvia atrás de uma estante, com o coração batendo forte. Nesse momento, não agüentei mais e saí daquele corredor e aproximei-me do balcão onde os dois conversavam. Jean-Baptiste deixou cair o cigarro da boca, que, na verdade estava apagado, pois não seria permitido entrar fumando ali. Arregalou os olhos e agarrou-me puxando-me para si. Abraçou-me com tal força, que quase me sufocou.

–Alma, Alma, você... não acredito. Você voltou! Você voltou!

–Sim, Jean, mas não esperava jamais encontrá-lo tão facilmente, assim...

Ouvi a conversa de vocês. Pelo jeito você continua perseguindo...digo, procurando Adèle, não é mesmo? Bem, eu também, esta é que é a verdade.

–Mas, Alma... bem, essa é Alma, Bertrand. Uma artista brasileira, notável...e uma grande amiga. Adeus, Bertrand, ponha o livro do velho na minha conta. Depois nos falamos. Preciso conferir com Alma alguns pontos da minha pesquisa. Depois lhe explico.

Mal tive tempo de estender a mão para o Bertrand, e fui puxada para fora por Jean-Baptiste, excitadíssimo, que queria logo sentar-se comigo naquele café, naquela mesma mesa de sempre.

Dirigi-me primeiramente ao interior para cumprimentar o Martin, que foi menos efusivo do que eu esperava. Na certa já me considerava uma destruidora de corações, tendo o Jean-Baptiste lhe confidenciado alguma coisa, deduzi. Os homens são assim... quando são bons. Dei uma olhada no Modigliani, e voltei à mesa onde Jean-Baptiste já se sentara, agitado, mas tentando se acalmar.

–Alma, Alma, você aqui , novamente, devo estar sonhando. Queria tanto revê-la, sonhei tanto com isso! Queria me desculpar por aquele bilhete idiota... pela minha fuga. Agi como um covarde. Tinha tanto medo de sofrer, mais do que já estava sofrendo. Mas não quero aborrecê-la, falando naquilo. Alma, como você está? Maravilhosa, estou vendo. A julgar pela sua aparência, você deve estar feliz, como sempre aliás...Sabe, Alma, isso é o que eu mais admiro em você. Essa sua alegria tranqüila, essa candura... numa mulher tão inteligente.

—Ora, Jean-Baptiste, não vá começar a lisongear-me, que a vaidade é o meu principal defeito, e caio na sua armadilha a torto e a direito. Mas aceito suas desculpas e até agradeço, na verdade, aquela sua fuga, pois eu precisava também de um afastamento para poder coordenar os pensamentos... e os sentimentos.

–Então, Alma. Fazem já seis meses que nos despedimos e de lá para cá, minhas pesquisas não progrediram muito. Corinne encontrou mais uns dados sobre você, digo, sobre Adèle, e também sobre Carpeaux, mas nada que resultasse numa grande revelação consoladora. Não estive no Museu Marcello, tinha esperança no seu retorno para visitá-lo em sua companhia. Mas encontrei um catálogo de suas obras, fantástico. À propósito, Corinne me presenteou a estatueta de Lizst, que tenho agora em meu consultório, sobre a mesa. Outro dia, comprei um dos primeiros sacos de nozes da temporada, para quebrá-las com ela, em sua honra, quando você pisar no meu consultório, pela primeira vez. Depois farei você deitar-se no meu divã, freudiano por sinal, nada junguiano, e hei de ouvi-la num fluxo espontâneo, de confissão, para entender uma ou duas coisas misteriosas, para mim, a seu respeito. Que tal? Não? Está bem, estou brincando. Na verdade você não poderia jamais ser minha analisanda, estou envolvido de outra forma. E depois, nunca se

viu uma pessoa feliz, no analista, não é mesmo? Não, não estou sendo irônico, é o que eu acho, mesmo. Mas Alma, fale-me de você .

–Jean, depois daquilo tudo que se passou conosco já não sou mais a mesma. Adèle parece estar subindo, devagarinho, e tenho medo dela me tomar por inteiro. Isso é assustador, pois ela me parece muito diferente de mim, quero dizer, do que eu suponho que eu seja. Adèle é cruel com os homens, embora apaixonada como eu. Ela parece não se importar com o sofrimento deles. Enfim, é uma lilithiana, enquanto eu sou uma filha de Eva. Tenho horror à crueldade, à indiferença, à destruição. Vejo agora, claramente o porquê daquela Píthia, do Marcello, no saguão do Opéra. Aquela pitonisa está claramente rejeitando um devoto, bloqueou a trípode sentando-se nela, ameaçando-o com sua garra no ar. Não, não quero ser assim em minha alma.

Na verdade, vim para revê-lo, Jean-Baptiste, e deixar-me levar pelos acontecimentos. Mas antes preciso rever Corinne. Ela apareceu-me, recentemente, num sonho, chamando-me enquanto eu ouvia um espantoso canto de sereias, amarrada como um Odisseu de saias, a um mastro. Como Euricléia, na Odisséia, a voz dela dizia que você corria perigo, pois era assediado por uma Fúria, disfarçada de pretendente feminina, em torno de uma Penélope de calças, que era você. Eu sei, é confusa essa inversão de papéis, e até um pouco ridícula, mas o sonho era assim. Passei a dar-lhe mais valor em minha alma, Jean, por isso vim pedir-lhe que me perdoe e...

– Alma, Adèle. Sim, sim, venha comigo. Meu consultório fica aqui perto e podemos ir a pé, chega de viagens, nada de veículos, muito menos de naves. Caminhemos de mãos dadas, se você permitir.

Saímos logo daquele Café e deixei-o pegar na minha mão. Caminhamos assim, como dois namorados. Meu coração começou a bater muito forte, e quando chegamos à porta do seu prédio eu já estava zonza, como embriagada. Apoiei-me no seu braço e entramos no saguão para pegar o elevador, daqueles antigos, como uma gaiola art-nouveau. Ele depois abriu a porta do seu consultório e avistei logo a mesa com a estatueta de Lizst. Corri para ela, segurei-a, logo recoloquei-a sobre a mesa. Virei-me e Jean-Baptiste prensou-me contra a mesa e deitou-me sobre seus papéis. Ergueu minhas pernas bem alto, sem que eu resistisse, embora um pouco espantada, e arrancou-me a calcinha. Desabotoou a braguilha, e tirando para fora seu enorme mastro, imobilizou-me enquanto eu ouvia o canto alucinante de mil sereias em meu cérebro. Deixei-o fazer o que quisesse. Ele ficou longamente navegando, entrando e saindo de dentro de mim, numa fome de séculos, numa viagem de retorno, numa peregrinação ao lar, que sei eu?...E explodiu num orgasmo imens
o que me inundou como a última vaga produzida pela nave que chega ao porto de partida.

Caiu então, sobre o meu peito e ficou assim, imóvel algum tempo, dentro e sobre mim. Depois escorregou, afastou-se e caiu sentado sobre a poltrona de consulta, e ficou olhando fixamente entre as minhas pernas, minha vagina aberta, que escorria. Deixei-o também fazer isso. Eu queria toda a passividade, toda a receptividade que pudesse lhe dar. Isso me produziu uma nova volúpia, de oferenda, de entrega. Eu precisava disso. Isso me apaziguou depois de tanto tempo de luta interior.

Foi preciso Jean-Baptiste levantar-se e fechar as minhas pernas, ou eu ficaria assim para sempre.

Depois, pegou a minha calcinha do chão, e devolveu-ma, novamente tímido, desajeitado. Pisei no chão, vesti-a, lentamente, enxugando com ela minhas coxas escorridas. Ah! Como tudo isso continuava a ser voluptuoso, embora ligeiramente constrangedor..

Jean-Baptiste conduziu-me à sala contígua, a das sessões, e fez-me deitar no divã. Sentou-se atrás de mim, na poltrona e disse:

–Vamos agora dormir um pouco e sonhar. Quero reencontrá-la como Adèle, e contar a ela o meu encontro com a Alma. Sei que ela sorrirá...

....................................................................................

No dia seguinte acordei no meu quarto de hotel e preparei-me para ir à Galeria. O telefone toca enquanto tomo o desjejum no quarto. Penso logo ser Jean, mas, para minha surpresa, é Ceres, saudando-me e dizendo:

–Alma, você não imagina quem está aqui ao meu lado. Um fã seu. Acaba de comprar o quinto quadro da sua exposição, que ele namorou muito tempo, hesitando entre esse e outros. Você precisa conhecê-lo, ele faz questão de esperá-la aqui . Você vem logo? Ele quer comentar coisas que ele descobriu hoje nessa pintura e nas outras também. Venha, querida. Você está pronta?

–Sim , Ceres, já estou indo. Dentro de poucos minutos estarei aí. Peça para ele me esperar. Quero conhecê-lo, também.

Em minutos estava eu entrando na Galeria e logo dou de cara com Jean-Baptiste me esperando ao lado de Ceres. Ele também abriu os braços, mas deixei-me abraçar por Ceres, carinhosamente, denunciando sua brasilidade persistente. Jean, um pouco travado, não seria capaz de um abraço assim. Estava um pouco tímido, especialmente depois da nossa intimidade súbita no seu consultório. Aproximei-me dele, que tocou meu rosto, para surpresa de Ceres, que nada sabia sobre nós. Confusa, intrigada com seu gesto, apresentou-me Jean, dizendo:

– Alma, este é Jean, seu mais novo e entusiasmado colecionador. Acaba de adquirir o quadro seu, vinte e cinco do catálogo, e que ele batizou Pythie. Ele me convenceu da presença nestas manchas, de uma pítia, que acabei enxergando. É um louco maravilhoso, você vai ver. Espero que vocês se gostem tanto quanto ele gosta da sua pintura. Já carregou quatro outras, do acervo, remanescentes da sua exposição. Insiste em que eu a convença a fazer esculturas, o que não acho má idéia. Fala sempre no seu “senso de volumes e de espaço”. Acho que ele tem razão. Mas... vocês parecem já se conhecer, estarei enganada?

–Não, Ceres, você não está enganada. Mas isso é uma longa história, não vem ao caso. Jean conheceu-me, numa viagem, onde nos encontramos e agora estamos nos revendo, com surpresa. Pelo jeito ele não havia ligado esta pintora à viajante, quem sabe... Não é mesmo, Jean?

–Sim, Ceres –disse Jean–Alma não me é estranha, na verdade, mas jamais pensei que a bela viajante pudesse ser esta pintora aqui. Ela me deu outro nome, se bem me lembro. Acho que era Adèle, não é mesmo, Alma?

Ou coisa parecida. Acho que ela não confiou em mim, naquele trem, e deu-me um pseudônimo. Mas, por quê ela deveria confiar num desconhecido que a abordou atrevidamente no corredor de um trem-leito, rumo a Fribourg, não é mesmo? Eu pensava que se tratava de uma alemã ou suissa , em viagem de retorno. Jamais poderia supor tratar-se de uma brasileira, e pintora tão talentosa. Muito menos que eu me tornaria seu colecionador.

Ceres, espantada, disse: —“ Mas que história fascinante. Que coincidências. Isso é fantástico. Minha filha adorará essa história. Ela é louca por coincidências ou “sincronicidade” como ela diz, junguiana fanática e aluna de psicologia. Logo Annie estará aqui. Chamei-a para conhecê-la, Alma. Da outra vez, ela estava em férias, justamente na Alemanha, quando da sua exposição, lembra? Não tivemos tempo para nada, durante aquela pequena temporada, com a montagem da exposição, e tudo.

Fiquei arrepiada com a menção do nome de Annie, e boquiaberta. Ceres notou e disse:

—O que é, Alma? Você está estranha, embora pareça bem. Não me diga que já conheceu Annie também, nalguma viagem. Não me admiraria, sua bruxinha brasileira. Você parece ser uma feiticeira de mão cheia, Alma.

Nesse momento tocou o telefone. Era Annie dizendo não poder vir, desculpando-se. Ceres pareceu desapontada e também desculpou-se pela filha, dizendo:

—Não saberei desta vez, se houve mais uma sincronicidade. Mas não faz mal, haverá outra oportunidade. Ela está por uns dias em casa novamente e eu quero convidá-los para almoçar lá, amanhã, está bem? Assim todos se conhecerão, ou se reconhecerão, não é mesmo?

Ceres era arguta, e não se deixava enganar facilmente. Percebi que ela não engolira a história de Jean, do trem, muito verossímil para ser verdade. Ela finalizou:

— Agora preciso ir para casa para receber meu ex marido que vai lá chorar um pouco e rever sua filha. Espero-os em casa, amanhã, ao meio-dia. Que tal? Está bem?

Concordamos e despedimo-nos, enquanto Ceres nos levava até a porta da Galeria, dizendo que depois nos encontraríamos no fim da tarde para acerto de contas e planejamento da turnê.

Saí com Jean, e disfarçamos um quarteirão, para, ao dobrarmos a esquina, nos agarrarmos com sofreguidão.

—Alma, Alma—ele balbuciou entre beijos avassaladores—Vou enlouquecer de alegria, desde ontem encontro-me no céu. Depois de deixá-la, ainda me masturbei duas vezes, pensando em você, não me envergonho de dizer isto. Estou estourando de amor e de desejo. Jamais esperei tanta felicidade, Alma, você me salvou a vida. Você me salvou a alegria de viver! Desde ontem não fumo, você notou? Não fumarei mais. Você me inebria. Estou embriagado de você, deusa! Venha, vamos para o meu apartamento, é perto daqui. Você reparou, tudo está perto, seu hotel, meu consultório, a Galeria e meu apartamento... Venha, venha.

Andamos três quarteirões, ofegantes de impaciência e emoção. Subimos um lance de escada, ao chegarmos, ele abriu a porta para um espaçoso apartamento de intelectual, que mais parecia uma biblioteca. Mas não tive tempo de reparar nos detalhes. Ele atirou-se sobre mim, arrancando minhas roupas e as suas, quase rasgando-as. Nua, atirou-me de quatro sobre um tapete fofo, e penetrou-me afoitamente por trás. Na verdade foi atrás mesmo e a seco. A dor foi lancinante, mas eu não protestei. Somente gritei de dor, num prazer agônico que me estarreceu. Eu precisava do sofrimento? Essa pergunta me ficou, depois, por bastante tempo. Eu me desconhecia. Mas esse desconhecimento me fascinava. Eu era misteriosa para mim mesma e Adèle ainda podia ocupar-me toda, ainda por cima, com as possibilidades de uma nova vida, deslumbrante.

Mas nesse momento estava eu ali, como uma cadela, feliz no meu sofrimento físico, senão moral. Ele ofegava em cima de mim com sofreguidão, indo e vindo até o sangue escorrer pelas minhas coxas. Depois de um violento orgasmo que o sacudiu, saiu subitamente, novamente olhando-me demoradamente por trás, de quatro, devassada. Tive então um orgasmo tardio sob o seu olhar, que finalizava o serviço. Não me envergonharei jamais disso tudo. No amor tudo é belo, tenho certeza disso.

Demorei para erguer-me, levantei-me sobre uma perna, depois sobre a outra, meus joelhos dobraram novamente, e caí de bruços, sem forças. Eu me sentia maravilhosamente estuprada. Serei eu uma masoquista? A dor era tão grande... e eu queria fruí-la. Se ele agora me possuísse novamente, eu não reagiria, e a idéia não me repugnava. Eu quisera ser virada do avesso, literalmente. Talvez, para sair do meu corpo sem abandoná-lo, sem renegá-lo, o maravilhoso corpo! Devo ser doida. E mais ainda de contar isso tudo aqui. Mas o leitor é um ser abstrato: eu não o olho nos olhos. É uma espécie de confessionário onde não vemos o rosto do confessor, nem mesmo a sua voz. E há a volúpia do escabroso, do mais íntimo em nossa confissão. Fique aí, leitor, não se afaste. Neste conto eu contarei tudo, sem reservas, mesmo que você me julgue mal. Não quero saber do seu julgamento. Dê-me somente seus olhos sobre estas páginas e sua visualização de minhas aventuras e do meu corpo, voluptuosamente martirizado, em sua mente. Eu me delici
o só em pensar em você, seu grande voyeur!...


.....................................................................................

Dormi no seu apartamento. Pedi a Jean somente que avisasse a portaria do hotel, para caso alguém me procurasse, para telefonar para ele. Acordei no dia seguinte com o corpo moído e com dores terríveis naquele lugar. Como poderia almoçar em casa de Ceres? Ainda mais que fiquei sabendo que ela telefonou para Jean , para saber de mim, e ele abrira o jogo. Como poderia conhecer sua filha, Annie? E se ela fosse a Annie do avião? Eu precisava estar bem. Não podia andar direito. Tentei e parecia uma grávida de último mês, andando como uma pata, as pernas meio abertas. Ai, que vergonha! Comecei a ter um pouco de raiva do Jean, mas logo afastei esse sentimento, resolvida que estava ao insólito, ao inusual, à aceitação incondicional das circunstâncias daquele relacionamento excepcional.

Tomei um demorado banho de assento, frio. Bem que os franceses foram os inventores do bidê. Agora sei por quê ...

Perto do meio-dia, sinto-me pronta para arriscar o almoço em casa de Ceres. Morro de curiosidade em encontrar-me com essa Annie. Será ela?

Saí com Jean me amparando, com dificuldade de andar, quanto mais de descer e subir escadas. Jean está constrangido e envergonhado e pede-me desculpas a toda hora. Ontem, ao desculpar-se, em seguida ao ato, inclinei a cabeça sobre o seu pênis e beijei-lhe a ponta. Ele sorriu, intrigado, e nada mais falou. Agora está de novo arrependido, consternado, amparando-me nesta escada como um marido com a pata choca da esposa grávida. Isso me fez sorrir, com um esgar, entre dores.

Tocamos a campainha e Annie abriu a porta. Era ela. Caímos nos braços uma da outra como as maiores e mais íntimas amigas. Mas logo ela pareceu surpreender-se em ver Jean, ali comigo. Pareceu subitamente constrangida e até contrariada. Fiquei imediatamente intrigada e corri o olhar de um para outro. Ah! Esses dois já se conheciam, e muito bem! Quanta sincronicidade! Mas havia aqui um grande mal estar da parte de Annie, pelo menos. Será que é o que estou pensando? Vou conferir isso com Jean, logo, logo.

Ceres recebeu-nos vestindo um caftan marroquino que lhe ficava muito bem. Essa mulher era fascinante, de uma independência e autonomia admiráveis, e parecia adorar a filha, mas com um respeito e despreendimento ideais. Já Annie, estava perturbada demais, olhando-nos muito, nos olhos. Eu queria tanto que ela me olhasse novamente como o fizera no avião, quando nos conhecemos e nos abraçamos pela primeira vez, em lágrimas!... Jean, você vai me pagar,(eu pensei). Você aprontou alguma. Esta moça está sofrendo, é visível. E você é um cara-de-pau, vindo aqui comigo, seu grande sacana,( eu pensava). Seu estuprador... Você fez isso com ela também? Dei um sorriso involuntário. O que me salva é o meu senso de humor, já dizia meu pai, desde minha infância. “ Não se leve muito a sério”, adoro esse lema trazido para mim, na forma de tabuleta, de uma sala de AA por um maravilhoso amigo alcoólatra.

O almoço seria maravilhoso, não fosse o mau estar de Annie, que nos olhava perturbada, e talvez com um certo ressentimento, eu percebia. Ceres segurava as pontas com seu “aplomb” invejável, tanto mais que devia perceber tudo, sagaz como era. Por meu lado, disfarcei bastante, da maneira mais fácil para mim, que era olhar muito os quadros nas paredes, que realmente me fascinavam. Veio-me mais uma vez aquela consciência do meu amor, acima de tudo, pela arte. “ A arte é tudo, o resto é nada”, escreveu Eça de Queirós. Ah! como eu concordava com isso apesar das minhas dispersivas paixões! Lembrei-me das últimas palavras do grande Camille Corot, no seu leito de morte: “ Espero que no Céu, haja pintura.” Meus olhos encheram-se de lágrimas, que não puderam ser entendidas, pois nesse momento Jean contava a Ceres sobre a coleção de seu pai, de esculturas, e sobre a impressão que lhe causavam na infância. Fazia isso com aquele Humor francês, que é impossível descrever. Uma auto ironia, muito diferente da dos judeus, por exemplo, também maravilhosa. Como definir esse humor? Uma sutileza psicológica refinada, um certo dandysmo do espírito, e sobretudo um certo spleen, naquele sentido que Baudelaire dava a essa palavra, uma mistura de tédio e auto complacência consciente, deliberada. Rimos muito, e Annie até sorriu um momento, quando vislumbrei em seu rosto, o amor profundo que ainda nutria por Jean. Mas a mágoa teimava em ensombrecer seu rosto. Quando quis ir ao toilette, ela prestou-se a me acompanhar.

No banheiro ela olhou-me demoradamente, e abraçou-me em prantos , soluçando. Dizia:

—Alma, Alma, era você desde sempre, era você. Eu devia saber, eu devia ter percebido quando a conheci. Uma pintora, bela e sensual. Uma brasileira, como minha mãe. Era tão fácil fazer a ligação. Esse homem me torturou com a sua imagem, sempre presente, até em seu sono. Aquilo era cruel, por si só, e quando ele me queria, só fazia aumentar a dor. Quando me possuía, era brutal, pois queria atingir alguém, através e além de mim. E doía demais.( Pensei no que Jean fizera comigo, e ficou claro que era o seu estilo, digno discípulo do Divino Marquês, que ele era. )

Caímos nos braços uma da outra e choramos juntas, ela de dor e amor perdido, eu de pena e amor por eles, acreditem. Que podia eu fazer, que devia eu fazer? Lembrei-me do meu propósito de não reagir às circunstâncias, de deixar fluir, como me ensinou, uma vez um mestre chinês de acupuntura, que eu consultara, e a cujo tratamento me submetera. O fluir do Tao. Essa era verdadeira sabedoria...

Quando deixamos aquela casa, eu tinha combinado encontrar-me com Annie no meu Hotel, à noite, para ela me contar tudo, para desabafar. Eu temia apenas me decepcionar com o Jean, saber alguma coisa mais grave em sua personalidade do que o seu hábito de sodomita contumaz ( perdoem-me o cinismo, mas era isso mesmo...)

Jean deixou-me no hotel, com um beijo apaixonado e mais um pedido de desculpas que calei em seus lábios com a ponta dos meus dedos. Deixou-me na porta do elevador. Subi para o meu andar, caminhando lentamente no corredor e quase não consegui chegar até a porta do meu apartamento.

Naquela noite fui acordada pelo interfone anunciando a chegada de Annie. Aquilo foi penoso no início, pois interrompera-me o sono. Bateu à porta e levantei-me com esforço, lamentando não ter deixado a porta destrancada. Abri e ela adentrou aos prantos, atirando-se em minha cama. Inclinei-me sobre ela e beijei-lhe as costas. Mas logo decidi deitar-me também, ao seu lado, e puxá-la ao meu peito, para acolhê-la, fraternalmente, quase maternalmente.

Mas meu corpo doía demais e escorreguei da cabeceira para estender-me com um esgar de dor e em lágrimas. Annie afinal percebeu e olhou-me assustada.

—Ah! Miserável , aquele miserável... ele também a deixou assim. Eu conheço isso. Eu conheço, vire-se, Alma, eu preciso ver isso. Não se assuste, não tenha vergonha.

Ela abaixou-me a calcinha e abriu-me as nádegas como um fruto. Fez um chiado com a boca, horrorizada e disse: —Aquele demônio, fez isso com você também. Deixe-me tratar disso, vou fazer uma compressa fria. Espere.

Foi ao banheiro, voltou com uma toalhinha molhada , os olhos cheios de lágrimas, e tratou-me carinhosamente, amorosamente. Dizia:

—Vamos nos vingar desse diabo. Alma, temos de nos vingar. Ele não nos merece. Alma, não se iluda. Ele é cruel... e mau. Ele só ama um espectro do seu passado, que não entendo. Ele se vinga em nós, essa é que é a verdade. Alma, Alma, você não pode apaixonar-se por ele. Ele não a merece, minha querida. Ele não nos merece .

Pensei em dizer a ela que eu não via as coisas assim. Que aquele espectro não me era estranho, muito pelo contrário: estava ali, bem dentro de mim, e que além disso, eu considerava, incrivelmente, a sua brutalidade, um ato de amor desesperado. A sua fome, a sua carência de um século e meio. A fome de Ugolino devorando sua própria mão...e também seus próprios filhos.

Não, ela não poderia entender isso tudo. Pareceria loucura aos seus olhos. Ela veria em mim, somente uma louca apaixonada, cega de amor e de paixão, como ela mesma ainda era, malgrado seu ressentimento.

Ela permaneceu muito tempo, cuidando de mim, o que me enterneceu prazerosamente, apesar do meu propósito inicial de consolá-la. Na verdade, sua atitude, por si só, era verdadeiramente terapêutica para ela mesma, e sentindo isso abandonei-me aos seus cuidados. Bem mais efetivo do que eu abraçá-la, afagar-lhe as costas e enxugar-lhe as lágrimas com meus beijos. Minha doce Annie, minha amiga, meu amorzinho.

Ela adormeceu ao meu lado, abraçadas as duas, sua mão entre minhas nádegas. Eu me sentia completa agora. Adèle me tomava toda... ou seria eu mesma? Eu sempre fora assim, há séculos. Eu amo as pessoas que amam, como obras de arte que elas são, mormente quando sofrem, quando derramam ardentes lágrimas de dor, a legítima dor do amor, tanto quanto as lágrimas da incomparável alegria.

.....................................................................................


Acordei sem a presença de Annie na minha cama ou no apartamento. Encontrei o seu bilhete:

“Alma, querida, eu amo você e vou vingá-la. Vou vingar-me também. Não tente deter-me. Esse monstro precisa ser punido. Aguarde noticias. Beijos
Annie”


Fiquei tremendamente preocupada. Esqueci-me totalmente do Tao, e me pus em grande aflição. Fui banhar-me rapidamente e vestir-me o mais depressa possível. Sentia que precisava interferir, salvar Jean. Eu devia me apressar. Algo terrível estava para acontecer, eu sentia, eu temia. Lembrei-me de ligar para Jean. Mas o telefone tocava, tocava e ninguém atendia. Afinal atendeu a secretária eletrônica. Disse quase gritando:

—Jean, Jean, saia daí, ou não atenda a porta. Annie está furiosa, Jean. Está louca. Pode ser perigoso, não atenda, Jean, por favor. Ela quer vingar-se. Ela vai...

O tempo de gravação, muito curto, esgotou-se. “Matá-lo...”eu murmurei depositando o fone, em estado de terror.

Saí do apartamento, atirei a chave do quarto no balcão, de maneira intempestiva e descortês. Não havia mais tempo. Pensei em procurá-la em casa ou na Galeria. Lembrei-me que descumprira o combinado com Ceres, no dia anterior, no fim da tarde. Não tinha sido possível. Não seria mais possível nada. Eu não queria mais nenhuma turnê. Não com a minha presença nela, pelo menos. Eu queria salvar Jean e Annie para mim, os dois, para mim. Subi afinal, ofegante, a escada de Jean e sentei-me no chão, encostada à sua porta. Eu barraria qualquer passagem. Se não pudesse permanecer sentada, eu me deitaria em frente à porta . Eu esperaria ali. Teriam que passar por cima do meu corpo. Poderia dormir.

.....................................................................................

Fui acordada, sacudida, era Jean, preocupado:

— Alma, o que é isso, minha querida, o que você faz aqui no chão, dormindo? Você está bem, querida?

Abracei-lhe o pescoço, em lágrimas, dizendo:

—Jean, Jean, você está vivo? Annie não o encontrou, afinal. Jean, vamos fugir, não é seguro ficarmos aqui. Algo terrível pode acontecer. Não pude controlar a situação. Não tenho esse poder. O amor de Annie está doente. Ela não perdoa o desamor, a rejeição sofrida. Ainda mais que você a feriu com sua lança, quero dizer... Você entende, não? Comigo é diferente. Sou uma louca de outro tipo. Diferente dela. Que estou dizendo? Não sei mais. Tenho medo, Jean, tenho medo.

Jean pegou-me no colo, levantou-me e carregou-me para dentro, empurrando a porta. Esta abriu-se estranhamente e demos com Annie, de pé na sala, com um revolver na mão. Ela estava ali o tempo todo esperando por ele. Ela ainda tinha a sua chave! O que realmente houvera entre eles? Esse caso era mais sério, eu via... e agora era tarde demais!

Annie gritou: “ Largue Alma, seu canalha, ponha-a no chão ou poderei feri-la.”

Jean, perplexo, depositou-me no chão, mas eu levantei-me e pus-me em sua frente no momento exato em que ela atirava. A bala atingiu-me com tal impacto que atirou Jean para trás com o meu choque em seu peito. Tudo foi-se apagando, mas ainda pude ouvir os gritos de Annie e também os de Jean, enquanto eu descia a um poço escuro.

.....................................................................................

Acordei no hospital , alguns dias depois. Eu estava envolta em ataduras, abaixo dos seios e a dor era tanta ainda, que gritei, chamando a enfermeira. Esta apareceu, correndo. Disse:

—Alma, menina, não se mexa, você está bem. Seus amigos estão aí fora, há dias. Choraram bastante, agora estão felizes. Já sabem que você escapou. E aquela Madame Corinne, menina! Esteve aqui todos os dias. Mas a mais dedicada foi a sua marchand, Madame Ceres, não é mesmo ? Esteve muito aflita, parecia sua mãe, e não poupou esforços e orações a uma santa brasileira, se não me engano, para tirá-la do buraco escuro onde você estava. Pelo jeito a Santa é forte, olha aí, o santinho que ela me deu—(apesar da dor, percebi tratar-se de Iansã )— Você é querida, hem, menina? Precisa contar-me o seu segredo. Também, uma moça tão bela!

Sorri penosamente, e pedi-lhe sussurrando, que chamasse Jean. Ela disse:

—Claro, menina, ele está aí, o seu amigo. Era o que mais chorava, além de uma moça que está aí também.

Surpresa, vi Annie e Jean entrarem juntos e cercarem-me a cama, um de cada lado, agarrando-me as mãos.

—Alma, Alma, - disse Annie - você precisa me perdoar. Não agüento mais, Alma, você precisa me perdoar. Eu não me perdoo. Eu a amo, Alma, eu a amo tanto, nem sei bem porquê... Jean já me perdoou. Se ele não o fizesse, eu não chegaria até aqui: a próxima bala seria minha.

—Pare com isso, Annie - disse Jean- Já nos perdoamos um ao outro. Alma não precisa sofrer mais. Ela não merece isso. Ela quis salvar-nos, a nós dois, essa é que é a verdade. Com sua própria vida. Devemos isso a ela. Juntemos nossos amores sobre ela, que os purificará. Não é mesmo, Alma?

—Sim, Jean (sorri, dolorosamente ) —Deixem fluir a vida. Deixem fluir o amor. Deixem... tudo fluir...

Adormeci.

29/05/2006

_____________________________________________

Corinne


Terceira e última parte da Trilogia Perséfone, de Alma Welt

Passei semanas no Hospital, não sei ao certo quantas. Minha recuperação ainda assim foi surpreendente, segundo os médicos. Minha enfermeira, Claire, tratava-me com um carinho especial. Queria saber sobre a minha vida e sobre o Brasil. Os meus amigos teriam dito a ela que eu me comportara como uma heroína, e ela então tratava-me com redobrada devoção, que me comovia. Chegou a ponto de trazer a sua irmã mais nova para conhecer-me, no leito. Uma menina de grandes olhos perplexos, que pôs-se a chorar subitamente. Afaguei-lhe a cabeça, o que fez aumentar seu choro. Eu também me comovia com tudo. Estava fragilizada, com tantas emoções, depois do trauma sofrido. Mas, no entanto, contraditoriamente, eu me sentia feliz, claro, sobretudo com o desfecho redentor de tudo aquilo.

Jean me visitava todos os dias. Na verdade, não queria desgrudar-se da minha cabeceira, e o seu olhar, de amor e desejo, me enterneciam. Volta e meia beijava-me ardentemente e tocava os meus seios, para logo em seguida disfarçar, com as entradas de Claire, que o despachava, recomendado-lhe que me deixasse repousar. Quando lembro dessas coisas, reconheço que foi um dos períodos mais felizes da minha vida. Cuidavam de mim, eu podia descansar de tensões de que eu não me dera conta até então. As tensões da sobrevivência lá fora, da minha missão de artista, que eu me impusera tão cedo, a partir de uma data imprecisa da minha juventude. Dos deveres que eu me impusera na escolha da minha carreira. Como tudo isso era pesado!...agora eu percebia como quem arreia uma carga, afinal, com a permissão do Grande Patrão, ainda que temporariamente.

A falta que eu poderia sentir de mãe, já que a minha tinha me deixado tão cedo, era agora suprida por estas duas maravilhosas mulheres: Corinne e Ceres. Elas me visitavam todos os dias, e percebi que me disputavam a preferência. Mas, para mim, elas eram duas maternalidades diversas: Corinne buscando Adèle, e Ceres, a Perséfone resgatada do Hades, que ela via em mim depois do acidente. Quanto à Annie, ainda sofria demais. E Ceres não conseguia entender o que realmente se passava com ela, pois Annie não se abria com ela, por uma razão que eu pensava saber interpretar. Percebi que Annie temia muito a natureza tropical de sua mãe brasileira, como um enigma que ela suspeitava tê-la contaminado, de mistérios e sortilégios de um mundo desconhecido e do qual ela procurava defender-se. Como tudo isso era complexo!

Jean contara a todos, inclusive à policia, que havia sido um lamentável acidente entre amigos que se queriam muito, e a policia observando nossas relações tão carinhosas e emocionadas, tendeu a acreditar rapidamente nisso. Todavia o inspetor Bernard, ainda aparecia para fazer perguntas, com um ar vago, pensativo, como se não estivesse totalmente convencido, ou estivesse simplesmente curioso. Afinal, aproximou-se um dia do meu leito e disse :

–Mademoiselle Alma, há uma questão relativa à sua pessoa, que não foi solucionada. Trata-se, na verdade, de algo muito íntimo... e constrangedor. O seu médico , o Dr. Breton, interrogado por mim, e preocupado, como eu pela mocinha, confidenciou-me algo muito grave. Durante os exames que ele fez no corpo de delito, quero dizer no corpo da demoiselle, após o atentado, digo, acidente, que sofreu, foi constatado outro tipo de violência que a jovem teria sofrido. Sim, segundo o seu médico, trata-se nitidamente, de violência sexual, ou estupro, mesmo, melhor dizendo. Sei que isso é um assunto delicado, e que a mocinha ainda está traumatizada e em começo de recuperação. No entanto, o dever me obriga a insistir neste assunto. Um crime, pelo menos, senão dois, foi cometido aqui, contra a sua pessoa. A demoiselle não gostaria de falar sobre esse assunto, ou mesmo prestar queixa contra o agressor?

Fiquei tremendamente embaraçada, e preocupada com Jean. Não queria comprometê-lo. Além disso, envergonhada de que me tivessem assim devassado. Como explicar que aquilo fora “estupro consentido”? Haveria isso,

como “figura jurídica”? Ai!... Que vergonha! Como falar disso, de qualquer maneira, senão com vocês, meus leitores sem rosto? Não sabia o que responder ao inspetor Bernard. Como uma idiota, respondi, hesitante:

–Inspetor... não sei do que o senhor está falando...

– Mademoiselle, visto que reage assim, vou ser bem claro, me desculpe. Foi encontrado grandes traços de esperma... no reto da senhorita, que estava num estado aterrador, segundo o dr. Breton. Poucas vezes se vêm casos assim tão nítidos de violência anal. Como a senhorita percebe, não podemos passar por cima desse assunto, ainda mais que ele parece ligado ao caso da senhorita como um todo. Duas violências juntas contra a mesma pessoa , têm que estar necessariamente ligadas, não podem ser simples coincidência, não é mesmo?

– Inspetor, pelo amor de Deus, mantenha isso sob sigilo: não houve nenhum crime aqui. A verdade é difícil de acreditar, mas trata-se de um caso de paixão, de arroubo, de amantes que se descontrolaram. Tanto mais que essa modalidade é preferência nacional em meu país, parece que no mundo todo, na verdade...

– Mademoiselle Alma, já que quer assim, nada posso fazer. Mas garanto-lhe, tenho uma filha da sua idade, e se algum canalha ... bem vou encerrar o caso. Mas reservo-me o direito da minha opinião: a senhorita está escondendo alguma coisa. Por isso podem contar com o meu olhar vigilante, mesmo à distancia. Por ora, fique com meu cartão. Qualquer novo problema me procure. A senhorita é singular.. Bem, espero que tenha uma boa recuperação e sucesso na sua carreira. Nada entendo de arte, mas sou curioso e fui à galeria e pedi para ver as suas obras. O enígma só fez aumentar. Passe bem, desejo-lhe felicidade...e serenidade no amor. Cuide-se, mocinha.

.....................................................................................

Quando afinal tive alta, já o caso estava encerrado e Jean queria de todo o jeito que eu me mudasse para o seu apartamento, dizendo que contratara uma moça para cuidar do resto da minha recuperação, da minha alimentação, etc. Aceitei sem mais resistências. Eu iria brincar de casinha, e permitir-me uma maior trégua na minha carreira e nas tensões que eu tinha descoberto e a que já me referi. Ia ficar um longo período sem pintar, já que sentia dores quando erguia o braço direito, que além disso estava enfraquecido. Eu poderia escrever poesia, quem sabe, como na minha adolescência Lembrei-me de um poema idealista e simbólico que escrevi aos dezesseis anos, em homenagem a Leonardo da Vinci, que eu, em minha enorme pretensão de artista, considerava meu mentor espiritual desde sempre:


Ode a Leonardo da Vinci

Antigos apelos se perderam no tempo

Continuamos sós na solidão...

As planícies se erguem num vôo de águias e de corvos,

Uma floresta de punhais recorta o espaço.

Mas algo nos enfraquece ainda,

Dispersos sob o sol desconhecido e agônico.

Os continentes se cobrem de couraças,

Que já sobrevivemos à Beleza,

Que nossa dor persiste.

Messer Leonardo da Vinci, mestre e pai,

A tua voz lançada nos espaços do Tempo

Chegou até nós, embora ainda indignos,

Mas de antemão redimidos pela tua força.

Todavia, falo por mim só,

Solitários que estaremos sempre...

Em sonhos e delírios sou a discípula bem-amada,

De cujos olhos, dia a dia, intensificas a luz

E a cujo ouvido murmuras sonhos loucos.

Sou a discípula dileta, renascida e pura.

Sou tua procura, teu silêncio,

A nobre curiosidade em teus sentidos,

A tua casta barba afagada na concentração,

E a tua poderosa e alva mão que afaga e cria.

Perdoa, Mestre, não te amei de um perfeito amor:

Como Beltraffio, temi os teus poderes

E a tua sabedoria perturbou-me a alma.

Eras, em verdade, o mago, o bruxo, o grande Alquimista.

Cavalgaste nas noites proibidas,

Rumo ao Sabat dos deuses mortos.

Conhecias a Noite e talvez fosses seu mestre.

Terias transmutado os metais,

Imenso criador de ouro que tu foste.

Nas cidades anoitadas sei que pairas.

Às vezes suponho avistar a tua barba anciã

Novamente transmutada no ouro da tua sábia juventude,

Como um periódico cometa no céu da minha alma.

Mestre, também estou só, procurando na Terra

Enquanto procuras no Infinito

Aquilo que já era teu, pois foste verdadeiramente belo.

Ama-me ao longe, Mestre, e dá-me a tua benção.

Desde a Morada dos Sábios e dos Altos, dá-me a tua benção.

Aqui, nos ossos da feroz maquinaria,

Algo do teu amor lateja e subsiste.

Algo da tua estranha fé renova-nos a face

Consumida nos grandes estrépitos modernos.

Perdoa, pois, ó Mestre, o que fazemos da tua voz.

Distante a discernimos e a amamos sempre,

Embora não saibamos responder.

Agora ao lembrar-me desse poema me sinto um pouco envergonhada com o romantismo, ou excessivo idealismo que vislumbro em meu caráter, tão contraditórios com o meu senso de humor que prefiro muito mais, e que tão lucidamente fora incentivado por meu pai, em minha infância, ao contrário de minha mãe, que parecia exigir que meninas não o tivessem, e muito menos que fossem engraçadas, pois lhe parecia uma espécie de despudor.

No apartamento de Jean, começou um período estranho, embora feliz. Quero dizer: havia alguns mistérios a serem resolvidos, e eles ali se apresentavam mais claramente. Jean continuava suas pesquisas sobre Adèle, sobre a qual estava escrevendo um monografia fartamente ilustrada, enquanto procurava algo mais do que parecia. Mais do que um simples trabalho erudito sobre arte. É claro que ele procurava a própria Adèle e eu estava ali como sua refém. Como se ele a visse sempre através de mim, o que me incomodava um pouco. Temia que ele pirasse e que quisesse voltar no tempo. Isso procedia, pois um dia apareceu vestido em minha frente com uma indumentária demodée, de escultor do século XIX, com um espantoso laço no pescoço e uma boina. É verdade que o fez com um ar de diversão, mas eu percebi algo mais. Trouxe-me também um vestido maravilhoso, daqueles com armação
por baixo, emprestado de uma amiga atriz que tinha feito com ele a Dama das Camélias. Vesti-o sem reagir e ele caiu-me aos pés, como Armand, enquanto eu fingia desfalecer de tísica terminal em seus braços. Rimos muito, o que fez realmente doer-me muito o peito baleado. Ele preocupou-se e carregou-me para o leito. Aí sim, quase morri, por puro “fisique du role”. Ah! Quando me lembro disso tudo, doe-me o coração e a nostalgia confunde tempos e idades em minha alma!...

Afinal, quando comecei a sair de casa, procurei Annie que tinha sumido, mas não pude encontrá-la. Ceres me disse que Annie tinha ido ao Oriente, mais especificamente à Jerusalém. Aquilo me soou como uma peregrinação que a pobre Annie se impusera. Como eu gostaria de abraçá-la novamente, beijá-la e dizer-lhe o quanto a amava! Sim, que eu a amava tanto quanto a Jean, embora isso pudesse não ser nenhum consolo para minha pobre amiga.

Corinne visitava-me quase todos os dias. Ela me maternalisava abertamente pois não tivera filhos, seus mesmo, muito menos uma filha. Ela criara Jean e o seu irmão sem grandes veleidades de mãe, mais como uma dedicada amiga do que madrasta. Esse irmão de Jean era um mistério para mim. Parecia que tanto ele como Corinne evitavam mencioná-lo ou sequer pensar nele. Mas, a razão disso eu haveria de desvendar em seguida.

Corinne trazia alguns resultados das suas pesquisas sobre Adèle para Jean, mas eu percebia que ela estava agora mais interessada em mim mesma, em pesquisar na verdade esta Alma aqui. Ela, no entanto fazia isso com um carinho extraordinário e parecia adorar uma oportunidade qualquer de abraçar e acariciar. Eu estava comovida e intrigada ao mesmo tempo, em relação a essa bela mulher quase idosa, que realizava talvez sua fantasia de mãe, tardiamente, comigo. Mas não tardei a descobrir que havia também uma nuvem em sua vida.

Corinne encontrara o pai de Jean em circunstâncias parecidas com as nossas. Ela era atriz, em começo de carreira. Descobri que era talentosa, mas sobretudo bela. Tão bela que isso até prejudicava-lhe a carreira, colocando-a sob suspeição, como acontece comigo também, essa é que é a verdade, perdoem-me a imodéstia. Como se às mulheres bonitas nada mais fosse permitido, muito menos o talento. A inteligência então, nem se fala. Bem, há muito tempo me reconciliei com esse fato, e agora consigo administrar razoavelmente essa "desvantagem". Mas Corinne foi vítima disso, e tomada pela paixão, renunciou à sua vocação de atriz, o que a manteve virtualmente prisioneira de um grão-senhor e de seu castelo de espectros materializados: um fabuloso museu de esculturas prodigiosas, que lhe produziam admiração, respeito, mas também um certo temor. Ela tentava acompanhar a paixão derivativa do pai de Jean (que se chamava Ugo) mas não conseguia. Aquelas estátuas logo se apresentariam ao seu espírito como um cenário terrível das vítimas petrificadas pela Górgona, em seu silêncio aterrador, em seus gestos interrompidos, no espantoso oposto do animado mundo do seu teatro perdido.

Corinne não se tornou uma mulher triste, mas truncada, neutra. Só se animava no recesso da intimidade dos braços do seu amado, quando este esquecia um pouco o seu fabuloso elenco mudo, dessa peça incompreensível, de todos os mitos petrificados juntos como o Museu do “Inconsciente Coletivo” da Humanidade, que ele mantinha ciumentamente em sua casa. Deuses, deusas e alguns mortais escolhidos ocupavam lugares determinados num tabuleiro invisível aos não iniciados, no espaço mental de sua casa, como um jogador solitário que joga sempre consigo mesmo, eternamente.

Corinne poderia ser destruída nesse tabuleiro, onde não se encaixaria, não fosse ela uma espécie de bela sombra necessária que velava para que o insólito torneio não tivesse fim.

Quando Ugo ficou afinal doente, ela pode afirmar-se com uma autoridade desconhecida de todos até então, quase anulada que estivera durante tanto tempo. Jean e seu irmão não lhe tinham sequer dado a importância que poderiam lhe dar, órfãos que eram, na verdade, e tão necessitados de mãe. Procuravam a atenção do pai, cada vez mais distante em seu sonho incompreensível, e sem perceber, avaro em seu carinho. Austero demais no trato pessoal, exigia dos meninos somente a cultura e o dever. Não tardei a descobrir que o irmão de Jean fora vítima desse processo. O rapaz se suicidara aos quinze anos. Foi encontrado enforcado no sótão da casa com um bilhete:

DANE-SE MICHELÂNGELO!

Parece que esse bilhete de suicida chocara o pai de Jean, mais do que tudo, e tratou de por uma imensa pedra de Carrara em cima do episódio. Não sei como Jean sobreviveu a isso tudo. Sabendo disso, agora, eu queria derramar o meu amor, o meu carinho e a minha ternura sobre este sobrevivente que me parecia heróico, pelo simples fato de ainda estar ali.

Eu podia imaginar a dor do pequeno Jean diante daquele enforcado, já que fora ele o primeiro que o encontrara. Eu ainda enxergava aquele susto, aquela perplexidade, nos seus olhos azuis quando me olhava nos seus momentos mais frágeis, mais íntimos. Eu então lhe beijava as pálpebras para fechá-las como às cortinas de uma peça encerrada, que ninguém aplaudiria.

Corinne então revelou-se a partir dali. Tomou as rédeas de uma casa que ameaçava desmoronar-se, não fisicamente, já que tudo era tão firme como o bronze e o mármore e as paredes monumentais, mas no seu sentido interno, íntimo, que parecia perder o seu significado quando o caixão foi velado, à antiga, entre quatro tocheiros de prata, no salão cujas estátuas foram temporariamente afastadas. Corinne segurava a mão de Jean que parecia ter virado novamente um menininho diante de algo que não compreendia. Certamente era mais fácil entender a imobilidade daquelas estátuas do que a do rosto branco de seu irmão, de olhos cerrados naquele caixão rodeado de flores mórbidas. Jean nunca mais suportou as flores e a única rosa que me deu foi aquela que pôs no copo da nossa mesa do Café naquele nosso segundo encontro. Como tudo aquilo agora parecia distante!... Como eu estava envolvida agora com o universo do meu amor, que eu descortinava dia por dia, compenetrada do imenso mistério e grandeza da vida humana, quanto mais é vista de perto, de dentro, e do fundo de sua profundidade insondável como um belo e triste lago de águas negras...

Jean me amava cada vez mais e sua idolatria poderia se tornar perigosa para ele mesmo. Eu temia a sua tendência delirante, a que eu mesma não estava imune. Eu me conhecia, e sabia como eu era influenciável pela emoção, se não pela razão. Eu sempre pusera poucas barreiras ao arroubo,
ao entusiasmo e à profunda comoção na minha vida, pois eu não me permitiria poupar-me, numa trajetória que eu queria plena, rica, se possível sublime. Essa era a verdade do meu coração romântico, que só me permito confessar aqui, sobre estas páginas.

Um dia Jean, vendo-me recuperada, e bem, chegou da rua com entradas para o Opéra. Iríamos ver Lakmé, de Léo Delibes. Bati palmas de alegria. Era uma das minhas óperas favoritas e só em pensar em ouvir ao vivo “ où va la jeune hindoue ”, a “Ária das Campainhas”, meus olhos se encheram de lágrimas de emoção. Vestimo-nos com apuro, e uma hora depois estávamos naquele saguão da Pythia, que desta vez evitei olhar muito. Queria preparar-me para fruir a música, e não aquele grito mudo, que agora me causava uma certa repulsa.

Instalados no camarote, ouvindo a maravilhosa abertura daquela ópera, em que já se insinuava o tema da ária famosa, pus-me a caminhar com a jovem hindu, “fille des parias” com a qual estranhamente me identificava. Que contradições eu tinha na minha alma, que ia da duquesa Adèle à aquela pequena pária da Índia, que batia uma pequenina campainha para afugentar o tigre, em sua travessia solitária da floresta. Eu via ali a alegoria da minha própria vida, pequena e frágil que, na verdade, eu era, soando uma campainha que era a minha própria arte tão modesta diante de um mundo tão vasto e ameaçador como aquela floresta.

Depois de momentos sublimes, em que pus-me a derramar-me em lágrimas de maneira tão abundante que preocupou Jean, a ponto de querer retirar-se comigo, acreditando que aquilo estava me fazendo mal, encontramo-nos ao findar o espetáculo, com Corinne no salão, que belíssima com seus cabelos brancos, que eu adorava, e que tinham tal luminosidade que a destacavam naquele Foyer, nos abraçou, alegre, e puxou-me para um canto confidenciando-me:

—Alma, querida, preciso de você. Não me pergunte nada por enquanto. Venha à minha casa amanhã, mas não diga nada a Jean, eu lhe peço. É absolutamente imprescindível que você venha só. Tente despistar o seu marido, posso chamá-lo assim? Vocês formam um casal tão unido, que acredito poder considerá-los marido e mulher. No entanto, peço-lhe esta pequena traição. Sim? Você virá querida?

–Claro, Corinne – disse eu–Estarei lá amanhã, cedo, se você quiser. Estou à sua disposição, você pode sempre contar comigo, você sabe.

Após aquela noite, em que fui dormir feliz e comovida, mas ligeiramente perturbada pela curiosidade, acordei cedo, e preparei-me para rever o castelo da Medusa, com seu fabuloso tesouro de deuses petrificados.

A porta me foi aberta pelo seu novo empregado, uma espécie de mordomo negro, africano legítimo, que ela descobrira e que seria capaz de morrer por ela. Conduziu-me escada acima até o andar superior, a que eu nunca tinha subido, e que mais parecia o das dependências íntimas de um palácio. Bateu na porta de um quarto no fim de um corredor e em seguida empurrou a porta e retirou-se sem olhar para dentro. Vi Corinne num portentoso leito, sentada com a bandeja de pernas, do “pétit déjeuner” em sua frente. Depositou a xícara e com um sorriso receptivo, disse:

–Alma, minha querida. Que bom que você veio! Eu sabia que podia contar com você. Você está bem ? Sente-se aqui ao meu lado, querida. Quero mostrar-lhe uma coisa.

Tirou de debaixo do grande travesseiro, atrás de si, uma caixa de madeira marchetada, e abrindo-a retirou uma carta, que pelo papel, à primeira vista me pareceu antiga. Entregou-ma, dobrada que estava, abri-a e li:

" Minha querida Corinne

Quando você abrir esta carta, já terei ido, levando comigo as lembranças dos momentos felizes do nosso encontro nesta vida. Você foi sempre a minha amada ideal. Sei que você sacrificou tanto pela nossa relação: uma parte importante da sua vida, da sua alma mesmo. Mas eu sempre soube apreciar isso, e reconhecê-lo em meu íntimo, apesar do meu enorme egoísmo, que também reconheço. Todavia eu não podia abrir mão, jamais, da sua dedicação, de sua abnegação a mim e aos meus filhos, que eu não saberia carregar depois da morte de Adèle. Sou mais fraco do que pareço e você sabe disso muito bem. Agora quero revelar-lhe um segredo: Minha falecida Adèle, era bisneta da grande Adèle "Marcello", minha escultora favorita (que tivera uma filha natural, e portanto uma descendência que descobri nas minhas pesquisas), e confesso que somente por isso casei-me com ela, o que pode ter sido um erro fatal, pois não pude fazê-la feliz como ela merecia. Ela matou-se, essa é a verdade que nunca lhe contei porque eu tinha imensa vergonha de mim mesmo por esse fato, como pela morte nas mesmas circunstâncias do irmão de Jean, o infeliz pequeno Marcello, vítima como a mãe de uma carência que eu não pude suprir em ambos.

Considero você e Jean, sobreviventes, talvez, do meu egoísmo, da minha enorme pobreza, que agora realizo. Não soube manifestar meu amor por vocês todos, dominado que estava por meus espectros, sobretudo pelo espectro da primeira Adèle, que foi a obsessão da minha vida. Espero que você e Jean escapem dessa herança maldita e que as primeiras peças de que se desfaçam após a minha morte sejam os Marcellos da minha coleção. Eles são os fantasmas cristalizados de uma obsessão que me tomou desde que eu era criança, quando fui levado ao Opéra por meus pais para assistir uma ópera francesa se não me engano a Lakmé de Delibes.

No Grand Foyer, defrontei-me pela primeira vez com a Pythia que obsedou a minha vida em torno de uma Musa que quase consegui captar e que você sem saber também corroborou ao interpretá-la numa peça, sem se dar conta, e em cujo papel lhe conheci.

Como você sabe, meus filhos herdaram os nomes ligados àquela vida: Marcello e Jean-Baptiste, o amigo,que na verdade nunca foi um amante a não ser espiritual, talvez. Adèle-Marcello foi apaixonada por Lizst, desde que ela o conheceu e fez o seu busto que tenho no meu escritório, um dos exemplares de uma edição raríssima, três peças somente, uma está no Museu de Fribourg, a terceira nunca pude localizar. Também nunca pude suportar a música de Lizst, mas eu a ouvia para compreender Adèle ou para tentar captá-la, de algum modo. Sei que você sofria calada todos estes anos por estas minhas estranhas paixões, e que você suportou mais do que a maioria das mulheres suportaria. Quero que me perdoe, depois da minha morte, se puder, pois estou convencido de que as obsessões são duradouras, atávicas e herdáveis... como os tesouros e as maldições.

Perdoe-me e acredite no meu amor, apesar de tudo

Seu

Ugo"


Terminei a leitura e permaneci de olhos parados, algum tempo. A carta era uma grande contribuição ao entendimento da vida e da psique de Corinne e de Jean, embora acrescentasse pouco ao conhecimento de Adèle. Não cheguei a ter pena do pobre Ugo, pois sua carta não chegou a me comover, denunciando seu fundo de frieza ou mesmo de impenitência. Queria eu que o pobre também tivesse se suicidado, para poder perdoá-lo, e chorar por ele? Não sei... Mas eu podia chorar por Jean, por Corinne e sobretudo por aquele pobre menino Marcello, vítima maior de tudo isso... Adèle, dentro de mim, eu sentia agora como uma ameaça. Devia eu recalcá-la, a ela que tantas vítimas fizera no passado, em sua vida, até os nossos dias?

Corinne segurou-me as mãos, beijou-as e disse:

–“Minha pequena Alma, minha querida, agora vou mostrar-lhe outra coisa. Só espero que você nada fale ao Jean, do que estou lhe mostrando. Nem da carta nem disso ”– e dizendo isso apontou uma estante que cobria toda a parede em frente à cama, que se abriu, girando a um toque seu, que não percebi, descortinando um quarto escuro, uma alcova, decorada como um cenário místico, vazio, teatral, com um nicho onde estava, terrível... a Pythia!.. em seu tamanho natural, sentada na trípode, com seu grito mudo, a garra no ar. Aquilo me causou tal espanto e emoção, que por pouco não desmaiei, sob o seu impacto. Ela parecia iluminada por um foco escondido que a fazia flutuar. Não obstante sua leveza, continuava ameaçadora como uma Fúria, a Górgona, ou uma Harpia. Lembrei-me da minha experiência passada, na fazenda de Antônio e Chiara, e um arrepio tomou-me o corpo, tanto mais que aquela obra tinha uma ressonância interna, em mim, que me chocava e me repugnava. Quis fugir daquela visão, e do quarto de Corinne, mas esta segurou-me os ombros, e abraçou-me dizendo:

–Enfrente-a Alma, enfrente-a em você mesma! Seu coração é tão belo e poderoso que pode nos exorcizar a todos, a começar por você mesma. Adèle, aquela feiticeira, não vencerá, no final. Sua beleza destrutiva precisava ser purificada e coube a você fazer isso. Eu percebi isso desde a primeira vez que a vi, aqui nesta casa, com Jean, quando vocês vieram consultar o Bénézit. Considero seu encontro com Jean e comigo, providencial. Só você, herdeira da alma de Adèle, redimida afinal, poderia nos livrar do seu sortilégio antigo, maldito. Sua alma purificou-se, evoluiu, pode se ver, em você, meu anjo. Lillith ficou para trás, perdeu suas garras com o século que passou e agora vemos afinal a perfeição de sua alma de artista, diante de nós, nesta Alma aqui, que todos amamos!

Caí em prantos, numa tremenda emoção. Corinne me abraçava como a mãe que reencontra uma filha perdida e essa impressão haveria de voltar mais tarde em meu espírito.


.....................................................................................


Jean trabalhava todos os dias no seu consultório e trazia dinheiro para casa, e também presentinhos, mimos. Eu me sentia a sua mulher, domesticada e contente. Cuidava do lar e só faltava ajeitar-lhe o chinelo e o cachimbo(ainda bem que ele não fumava mais).

Estava sempre pronta para o amor, ou para o sexo mesmo, melhor dizendo, e ele me enchia do seu esperma precioso, no mínimo duas vezes por dia. Aquilo fazia bem para a pele, eu me lambuzava bastante com ele e me sentia plena e feliz.

Porquê então não estava satisfeita? Ah! Adèle em mim, a minha alma de artista, terrível, me espreitava do fundo do seu nicho interior. Sua garra no ar, não permitia que o véu do santuário se fechasse totalmente sobre ela. Ai, estas metáforas me matam, mas era assim mesmo que eu sentia.


Preparei-me então, aos poucos, para dar o basta, romper com tudo e dizer a Jean:

–Meu amor, preciso voltar ao meu ateliê. Preciso ser livre, como outrora, para criar. Ceres pressiona-me, estou aqui há seis meses, e ela me quer de volta ao reino dos vivos, onde se sofre, eu sei, onde não estarei protegida, senão por ela mesma, mas onde poderei correr livre e colher as flores do meu caminho ( eu insistia nas metáforas...)

Jean olhou-me perplexo e consternado. Abraçou-me e com lágrimas nos olhos e disse, quase gritando:

–Não me deixe, Alma, não me deixe! Eu não vou suportar, eu morrerei se você me deixar de novo. Não posso mais viver sem você. Nunca pude... por favor, Alma, por favor!

Olhei-o e vi nele o menininho que Corinne segurava pela mão no velório de seu irmão. Meu coração apertou-se...e eu cedi. Permaneci silenciosa, de cabeça baixa e nada mais falei. O meu coração estava dividido entre ele e a minha arte. Entre Jean e mim mesma.

Mas então me lembrei do Tao, e do propósito de não oferecer resistência à corrente, ao momento. Deixar fluir. Isso me apaziguou. Meu coração descontraiu-se, eu sorri, e envolvendo-o com meus braços, puxei-o sobre mim, ao leito, para ser mais uma vez inundada pelo seu branco amor.


.....................................................................................


Andando pelo “Marché-aux-pouces” , agora que eu continuava a fazer a madame ociosa, encontro uma banquinha onde se viam gravuras, pequenos objetos e anéis. Percebo o retrato em litografia de uma mulher linda, do século XIX, com o dedo apoiado no rosto, em atitude típica de intelectual ou artista, como usavam, ao posar. Num pequeno pedestal ao seu lado, qual não é a minha surpresa, diviso o busto de Lizst! Reparei melhor nos cabelos louros e no rosto branco, bem destacados, habilmente, na gravura em preto e branco. Não tive dúvidas: era Adèle. Aquilo me causou imediata emoção. Aproximei-me e examinei a gravura, na sua moldura antiga, não encontrei nenhuma indicação, nenhum nome, nem do gravador, nem do modelo. Mas não havia dúvida. Perguntei o preço, e a moça comerciante, aproximou-se de mim e, surpreendentemente, como uma cigana, segurou a minha mão esquerda, e abriu-a como para ler a minha palma. Colocou nela um anel, me pareceu, e fechou-a, segurando-a para que eu não o olhasse agora, e deu-me o preço da gravura. Fiquei tremendamente intrigada. Peguei a gravura, e olhando a moça nos olhos, por um momento, afastei-me e fui para casa carregando o quadro sem mais olhar para ele. Quando estava perto do apartamento de Jean, ou, melhor dizendo, de casa, lembrei-me de que, surpresa, eu tinha esquecido de pagar o quadrinho à cigana. Pensei em voltar, mas achei que podia deixar para o dia seguinte. Eu tinha de preparar o almoço para o meu Jean, que deixava todo dia o consultório para almoçar comigo em casa. No ap, em meu quarto, pus o quadrinho sobre a cama, e lembrei-me de abrir a mão esquerda, afinal, que doía em torno do objeto. Era um anel, estranho, belo, de prata, antigo, com uma pedra que não identifiquei. Olhei o seu aro, internamente e estremeci: “Para Adèle, Carpeaux”. Quase caí para trás

A cigana me dera aquilo! O que ela vira em mim? Ela teria percebido Adèle? Estaria ela devolvendo-me o que era meu, conscientemente? Aquilo era demais. Amanhã eu iria ter com ela, sondá-la, resolver aquele enigma. Eu continuava a ser assombrada por Adèle, mas não podia, na verdade me revoltar. Afinal, eu encontrara Jean, encontrara a felicidade conjugal, e queria estar sempre repleta do amor branco do meu marido.. Eu fazia auto-ironia. Era incorrigível. Mas isso é que me salvava. Isso e o temor permanente de me mediocrizar, tinham me impulsionado toda a vida, como artista. E eu não podia mais continuar abdicando da minha incoercível vocação. Adèle não permitiria. Percebi, então, subitamente, o sentido de tudo isso! Adèle era minha cúmplice, minha aliada! Eu tinha de olhá-la por este ângulo, esta é a verdade. A artista maravilhosa que havia dentro de mim, era ela: Adèle, née D’Affry, duquesa Castiglione-Colonna. Apoiei o quadrinho contra um castiçal na minha mesinha de cabeceira. Jean ficaria impressionado. O que ele diria? O anel, por alguma secreta razão, eu esconderia dele. Amanhã eu procuraria a cigana.

.....................................................................................


Jean não se cansava de olhar a gravura. De perto, de longe. Chegou a pegar uma lente de aumento, pois cismou que na pupila de Adèle, ele poderia ver refletido o rosto de Carpeaux. Como não conseguiu, foi comprar um conta-fio, lente de ourives ou gravador, pois dizia que era uma questão de grau de ampliação. Lembrei-me do filme Blow-Up, de Antonioni, e fiquei também curiosa com essa possibilidade. Mas, claro, aquilo não era uma foto, e com o aumento só se conseguiu ver a textura arenosa do “grão” da pedra litográfica.

Enquanto isso, eu escondia o anel que Carpeaux dera a Adèle, pois não queria consagrar com aquele anel a nossa aliança, essa era a verdade. Eu pensava cada vez mais em escapar, malgrado meu amor por Jean. Até mesmo para preservar o meu amor por ele... eu precisava partir. Só temia a dor, a dor. A dele e a minha... nessa separação inexorável. Não, isso não seria uma rejeição, um abandono destrutivo daquela Bianca Capello a um seu amante. Eu queria preservar o nosso amor, e sabia que isso nos causaria uma dor... quase insuportável. Comecei a fazer as malas secretamente...e chorava enquanto o fazia.

.....................................................................................


Voltei àquela feira, mas não consegui encontrar a banquinha da cigana. Ninguém sabia dela. Com isso eu não contava... mas reconheço que era de se esperar. Tais ciganas só aparecem para transmitir algo, ou fazer um vaticínio fatídico. Pelo menos nos filmes ou nos romances. Como sou muito impressionável, fiquei mais abalada e confusa do que nunca.

Retornando à casa, e estando sozinha, peguei a lente conta-fio, para examinar o anel. Queria descobrir mais algum indício, se possível. Observei a inscrição, mas esta nada mais continha, além dos nomes. Mas... a pedra! Comecei a examiná-la, e qual não foi a minha surpresa quando percebi que dentro do cristal estava ... a cabeça da Górgona! Eu a via claramente sob a lente. Era invisível a olho nu, talvez um pontinho ínfimo. Mas ampliado... era terrificante! Distinguia-se claramente até mesmo as serpentes nos cabelos. E seus olhos eram terríveis! Temi, por minha vez, transformar-me em pedra. Que queria dizer aquilo? Como pudera Carpeaux perceber aquilo? Ou fora involuntário? Certamente ele conhecera esta Górgona, a Medusa, obsessão de Adèle, que a esculpira em tamanho natural, e a proclamara em si mesma. Eu estava cheia de medo. O que mais temo nesta vida é a possibilidade do Mal... dentro de mim mesma. É o único que realmente me assusta. Tudo se passa dentro, estou certa, deste cristal misterioso que é a nossa alma. Tudo o mais é Maya, ilusão... Sempre acreditei nisso. O próprio mundo é um fenômeno subjetivo. Depende totalmente da nossa visão. Por isso pode-se ser feliz... ou infeliz, neste mesmo mundo. Caleidoscópio. Eterno jogo de inversões.

.....................................................................................

Terminei de fazer a mala, com as últimas roupas por cima, úmidas das minhas lágrimas. Coloquei-a junto à porta e permaneci de pé, imóvel esperando por ele.

Jean entrou e vendo-me ali, e àquela mala, ficou lívido imediatamente.

Estendeu a mão no ar, e ela tremia. Ele sufocava. Afinal murmurou:

—Alma, não... não. Não faça isso. Eu lhe imploro, Alma, não!

Agarrou a mala e correu para dentro. Abriu-a e despejou as roupas sobre a cama. Gritava:

—Eu não deixarei! Você não pode me deixar. Você me mata! Você me mata!

Eu tremia, embargada. Eu não imaginara que seria assim... tão penoso. Abracei-o forte, enquanto esse homem maduro chorava como uma criança. Disse-lhe:

—Jean, Jean, ouça-me. Eu não deixei de amá-lo. Eu não deixarei nunca de amá-lo. É necessário, Jean, que eu me vá. É necessário... Você deve saber. Você deve compreender.

Jean soluçava, agarrado a mim. De repente, afastou-se, permaneceu em pé, estático, paralisado, imóvel, em estado de choque.

Recuei lentamente, olhando-o, olhando-o sempre, até chegar à porta, e de repente voltei-me e saí. Sem a mala, sem nada.

Estava decidida a não mais retornar.

FIM

01/06/2006


______________________________________________